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  • Foto do escritorMiguel Fernández

Como assaltar um banco (Convites Sem Saída)

Atualizado: 17 de abr. de 2023

Conheci Leonard Goldblatt em São Paulo, em 1971, na empresa que nos contratou para tocar o projeto do SAM, Sistema Adutor Metropolitano: americano, judeu, rotariano, maçom, uns dez anos a mais que eu. Ficamos e somos até hoje muito amigos. Excelente e interessante pessoa, bom contador de histórias. Qualquer coisa e lá vinha ele com uma parábola. Um LaFontaine moderno.


Por volta de 1984/85, estávamos os dois morando no Rio e cada um com um pequeno escritório no centro, no famoso edifício Avenida Central (Av Rio Branco 156). Minha sala era 2628, e a dele a 2520. Tínhamos outro “vizinho" por ali, o Sato, um nissei especialista em informática. Era o início da era dos computadores pessoais (PCs), que se tornavam cada vez menores. Ainda não havia os Laptops mas começaram a surgir uns menores, chamados “portáteis” (hoje seriam um desktop). Como eu conhecia os dois fui o elo de ligação e nos ajudávamos mutuamente. Também é importante entender que naquela época, com a desculpa de proteger a indústria nacional era proibido importar computadores montados o que resultava em estarmos muito atrás do que já havia no mundo. Se não me falha a memória só havia dois fornecedores por aqui: a Itautec e a SISCO.


O Leonard tinha uns contratos de projetos de engenharia na Marinha de Guerra e a sala dele era frequentada por uns militares navais, que, na companhia do Leonard acabavam passando também na minha sala e na do Sato. Nessa época o Leonard também estava de mudança para os EUA, com a esposa e dois filhos nascidos aqui.


Encurtando a história o Sato foi contratado pela Petrobrás para orientar um programa de aquisição de equipamentos e customização de softwares, nessa fase de mudanças tão rápidas, e precisou, para se manter atualizado, “adquirir” um PC de primeira linha para ver como as coisas estavam evoluindo, Lembro até hoje: um verdadeiro desktop, com alça de mala: um portátil então avançadíssimo (menos capaz do que meu telefone de agora).


Uma ou duas semanas depois, a polícia federal invadiu a sala do Sato, que foi avisado por telefone, foi para lá para ser preso por contrabando, achando que não era possível. Alguém o havia denunciado. Os próprios policiais constrangidos. Ficou preso na Praça Mauá por uns 10 dias, onde até fui visitá-lo e levar uns cigarros. Um absurdo, podia ter sido comigo ou com você que me Iê. Um PC, para uso profissional! Nem comércio era.


Quando a poeira assentou, o Sato estava arrasado, o Leonard havia se mudado e ficamos eu e o Sato imaginando como aquilo acontecera e nossas suspeitas caíram sobre um dos “marinheiros” que frequentava a sala do Leonard e era muito "tapado”. Mas não havia o que fazer.


Um ano depois fui aos EUA e o Leonard com a esposa me levou para jantar em um lindo lugar. Nessa ocasião, logo após o primeiro aperitivo perguntei ao Leonard se ele achava que o oficial de marinha amigo dele podia ter feito a denuncia. Leonard desconversou.


No meio do jantar, repeti a pergunta e novamente nosso amigo divagou. Como sou persistente (alguns chamam de “chato”), entre a sobremesa, o licor e o café anunciei minha disposição em ficar ali até que ele respondesse minha indagação.


Após algum tempo em absoluto silêncio olhando para mim, saiu-se com esta:

_Miguel, se eu resolvesse assaltar um banco, teria de formar uma boa quadrilha para as coisas não darem errado pois iria preso. O primeiro passo seria escolher bem os assaltantes, o que não é uma coisa fácil. Veja bem: um convite para integrar uma quadrilha com esse propósito é elogioso pois significa que a pessoa foi escolhida porque confiam nela e reconhecem suas habilidades profissionais (eletrônica, mecânica, explosivos, tiro, motorista, etc), seu equilíbrio e serenidade, seu profissionalismo. Sabem ou supõem que você não vai aparecer bêbado no dia do assalto nem com diarreia. Você é confiável.


Mas ao mesmo tempo deixa a pessoa sem escolha. Como recusar depois de saber que vão assaltar o banco? Os demais terão de desistir ou eliminar o que disser não.


Uma escolha de Sofia?


Não, disse Leonard. Pode até parecer, mas não é. Nessa situação não há escolha

possível.


— Você está me enrolando e continua sem responder minha pergunta, eu disse.


— Então, supondo que precisássemos de 7 pessoas para o assalto: eu incluiria o

Sato, o Fernando, o Sérgio, o Amauri, o Leônidas e você. O Oitavo seria eu...


E não incluiu o FDP do marinheiro babaca.


Fiquei pensando então que há momentos decisivos na vida quando não há o que fazer, só seguir em frente procurando fazer o melhor possível.


Lembrei de escrever isso agora, em fev2021 porque fui conversar com meu filho e meu xará sobre um convite que me fizeram e a indecisão em que eu estava. Meu filho já conhecia esta história porque eu já a havia contado em alguma ocasião que mereceu e me respondeu: — pai, o cara te convidou pra assaltar um banco. Se você disser que não, é como comprar um inimigo. E nem é uma ilegalidade, é sem risco e é elogioso, pode até ser chato, mas, sem opção.


Miguel Fernández, engenheiro consultor, cronista e articulista,

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