Engenheiros do Estado e serviços públicos
- Miguel Fernández

- 18 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atendendo o convite de um colega, ex-presidente da entidade, fui à posse de uma nova diretoria de uma velha sociedade de engenheiros, arquitetos e afins de “Servidores do Estado”! Auditório lotado, o mais jovem teria 60 anos de idade.
O nome do auditório era de um ex-professor meu. Pelas paredes, diversas placas em metal fundido, com homenagens. Acho que conheci e/ou trabalhei com 80% dos ali citados. Desses 80%, altamente qualificados, capazes e dedicados. Emocionei-me ao reencontrar velhos e velhas colegas de profissão, de venturas e de desventuras. Creio que a emoção era recíproca.
No início, o Francisco, seus 83(?) anos, instado a falar, de surpresa, teve que improvisar e saiu lembrando de quando entrou para o serviço do Estado, na década de 1960, no DER (Departamento de Estradas de Rodagem). Que, nessa época, nesse DER, havia cerca de 400 engenheiros e que, hoje, só há cerca de 35 e já são cerca de 6.000km de estradas (o dobro da época dele). Lembrou que ser “engenheiro do Estado” era uma missão de vida. Em que se recebia a experiência e o acêrvo dos que ali já estavam e se repassava à geração seguinte com a sensação do dever cumprido. Não entrou no mérito dos “porquês” isso ocorreu. Nem disse, se achava hoje, melhor ou pior. Deixou cada um tirar suas conclusões. Falou pouco e falou bem.
Para quem não é mais engenheiro do Estado, mas já foi, para quem admira os dedicados que por lá passaram e os que ainda estão, para os observadores não “militantes”, chamou atenção a mesmice dos demais discursos, tentando ser “politicamente corretos”, “socialmente engajados”, “defendendo igualdade de gênero”. Um show de infantilidades. Sobre a falta de concursos públicos para as carreiras, foram feitas apenas referencias “em passant”.
Mais adiante, falou outro engenheiro, desses octogenários, como o Francisco, mas foi um desastre. Começou elogiando a área ambiental, justo uma das que mais atrapalham o Brasil e a engenharia brasileira, agindo como se o ambientalismo fosse um fim em si mesmo. Reclamou de possíveis alterações de legislação, justo das que tentam defender o progresso de excessos do “ambientalismo canhestro”. Para não perder a seara em que se meteu derivou em falar da “ditadura militar”, caindo no lugar comum de esquecer que os militares também são funcionários do Estado, que também os há bons e ruins, como em qualquer grupo. Esqueceu que esses enfoques só desunem o interesse do Estado e o atendimento ao público e facilitam sermos dominados por outros, certamente alienígenas. Ficou no ar se seria inocência ou efeito manada.
Sobre o fato de que as escolas de engenharia, com suas reservas de mercado para docentes profissionalmente inexperientes, não mais usarem professores engenheiros do Estado, cheios de saber e até com tempo para lecionar, como era nos anos 1960 e 1970, auge da formação da engenharia brasileira, nem um pio nos discursos.
Ou seja, lamentações, muitas. Diagnósticos e sugestões, nada.
Como disse no início, a maioria preocupada com o politicamente correto, poucos “botando-o-dedo-nas-feridas”.
Saí pensando: como fazer para nos salvar e salvar esse pessoal de si mesmos?



Ótimo comentário ! Compartilho do mesmo seu pensamento. Tomo a minha formação como exemplo, sou formado em engenharia Sanitária e Ambiental. Observando hoje a minha trajetória na formação acadêmica, faço um meia culpa.
Não deveria ter entrado na universidade nos meus 17 anos, não enquanto não tivesse emadurecido nas ideias e no que queria para minha carreira profissional. Entrei pelo pensamento de que ter um diploma seria algo grande. Desprezava qualquer curso técnico, talvez pela minha ignorância, talvez pela cultura do pensamento compartilhado os quais alguém graduado tem mais importância que um "peão", do qual possui um carreira técnica. Hoje já tenho essa visão. Todos tem sua devida importância e seu lugar de trabalho, os trabalho individuais se complementam…