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  • Foto do escritorMiguel Fernández

O Serviço Militar, parte 2

Atualizado: 26 de set. de 2023

Aos 20


Em julho 1967, passamos 15 dias no CIAW e 15 dias embarcados de fato e de direito, em manobras em alto mar a bordo da esquadra naval brasileira, no meu caso no “Cruzador Barroso”, o resto da EFORM distribuído em uma fragata, dois contratorpedeiros, uma corveta e um submarino, quase todos, de certa forma, embarcações de segunda mão, da segunda guerra mundial, ou seja, projetos dos anos 30. A oposição ao governo afirmava que tais navios nos eram empurrados em troca de dinheiro por intermediários corruptos.


Essas manobras serviram para conhecermos melhor a tropa (os marinheiros) e como funcionavam as coisas na prática. Não deixava de ser eficaz. Fomos a Salvador (BA) e de lá a Santos (SP), voltando ao Rio. Nessas viagens, aprendemos o que é ficar embarcado por dias, com tarefas definidas, de rotina e / ou de guerra, estas últimas acontecendo em horários quaisquer, com tiros de canhão e mísseis de verdade, navegar em zig-zag, saber onde se estava e as rotas a seguir (na época não existia GPS e minhas funções eram da “armada-convés”, ou seja, navegação, posicionamento, roteiro). Saber onde se está, no meio do mar, vendo o horizonte em todas as direções e sentidos não é coisa tão simples, nem tão complicada, afinal portugueses e espanhóis o faziam desde fins do século XV (~1490). Na verdade, navegar é uma arte.


E o fato de serem obsoletos nos permitiu conhecer verdadeiros museus da mecânica e a origem dos equipamentos. Entender as coisas e os porquês. Na época (1967), muito da mecânica já estava substituída por eletro-eletrônica, hoje (2020), inteiramente, por eletrônica. Por exemplo, um canhão antiaéreo era “guarnecido” por dois ou três atiradores, cada um em seu banquinho tipo bicicleta. O primeiro acompanhava o alvo na horizontal em uma mira, movendo umas manivelas. O segundo, acompanhava o alvo na vertical, em outra mira em outro banquinho e outras manivelas. O terceiro em um binóculo cujo foco também dependia de manivelas, mantinha a nitidez do alvo, logo a distância. Com isso tinham-se as três coordenadas do alvo em tempo real, e sob os canhões, uma parafernália de engrenagens circulares, retas, giroscópios, pêndulos, enfim, os chamados servo-mecanismos, que miravam os canhões um pouco à frente do alvo para que, quando a bala fosse disparada (pelo tripulante que fazia a mira telescópica-ótica), sua trajetória encontrasse o alvo que se movia. Até hoje, ao lembrar daquilo, fico impressionado com aqueles verdadeiros computadores analógicos que, de forma geométrica, integravam e derivavam complexas equações de balística em tempo real.


Aprendemos também outra arte milenar: como o ser humano dito “marinheiro” é. Como se comporta, em condições normais, após alguns dias isolado em um navio, quer a bordo, quer em terra firme, após determinados dias embarcado. Quais os traços comuns. Quais os grupos comportamentais. Quais os desvios de personalidade mais frequentes, enfim, um belo exercício psicológico-psiquiátrico. Vale para qualquer pessoal isolado também, seja em obras, seja em tripulações de avião, enfim.

Digno de nota, é o comportamento da tripulação ao chegar a um porto, tanto como indivíduos como em grupo, o que desinibe as personalidades individuais. No caso específico, eram muitos navios e muitos tripulantes. É praxe internacional, que a polícia local, permita às esquadras estrangeiras, que montem seus próprios policiamentos nas regiões onde se sabe que seus tripulantes irão se concentrar, que costuma ser nas regiões boêmias e turísticas.


Foi então que soubemos que as patrulhas (24h por dia em cada porto) seriam compostas por um veículo tipo jeep paramentado, sem capota, um sargento, dois marinheiros e um aluno da EFORM, cada um portando um rádio VHF, uma pistola 45 semi-automática, um cassetete e um par de algemas. Para “aprender e ver como era”. Instruções? Ver com o sargento que fosse junto que normalmente seria uma cara com experiência de outras vezes! Enorme curiosidade, pois as histórias que nos chegavam eram folclóricas. Ficávamos entre ansiosos para ir e, ao mesmo tempo apavorados em ir.


Eram duas patrulhas por vez, fazendo uma espécie de ronda. Zonas boêmias era um eufemismo para zonas de meretrício, onde os problemas se concentravam. Fiz ronda em um “serviço” à noite em Salvador e um serviço de dia em Santos. Em ambas ocasiões deu para notar que, normalmente, a população nos tratava como uma polícia qualquer. Como a policia local não aparecia ou só aparecia se chamada, éramos parados, com freqüência, para resolver algo ou “fazer justiça”.


Aos olhos simples da plebe, isso acabava criando situações embaraçosas, difíceis de se desvencilhar, procedimentos normalmente precisando ser feitos com rudeza com a qual os filhinhos de mamãe da EFORM não estavam habituados.


Outro problema é que, na teoria e na prática não estava claro se os sargentos eram hierarquicamente acima ou abaixo dos alunos ou “aspirantes” a “guarda-marinha” da EFORM. Então, numa atitude de não se expor, normalmente um lado empurrava a chefia para o outro e vice-versa, visando se preservar de eventuais confusões. Os sargentos tinham cerca de 40 anos e nós da EFORM cerca de 20.


Em Salvador fui testemunha ocular de alguns episódios que me deixaram bastante constrangido como ser humano e filhinho de mamãe, e que, na prática, me indispôs com o resto da tripulação do jeep (o que, estando todos com um 45 no coldre, não é bacana nem desprezível). Tocou-me um pessoal duro, o que, se por um lado é bom para esse tipo de função, gostam de uns tipos de brincadeiras de gente rude, acham que você tem o mesmo senso de humor deles, e partem para se divertir, por exemplo entrar nas casas de meretrício e dar um chute na porta de algum quarto quando acham que o freguês está no meio do coito, só por sacanagem.


O pior é que todo mundo ri, inclusive a vítima. Se a vítima brochava, dizia a lenda que ia ficar um ano sem “levantar”. Se não brochava, saia correndo atras de seus, até então, algozes, para ejacular neles, enfim um circo dos horrores, de gosto trágico e lamentável. E eu, passando por patricinho, querendo manter o nível.


Em algumas casas, o nível era melhor que em outras, e pude conhecer ambientes que nunca precisei ou não quis frequentar. Nada contra quem precisava ou queria.

Lá pela tantas, ao cruzarmos uma esquina, avistamos o jeep da outra ronda da noite, cercado por uma aglomeração. Sugeri irmos lá ajudar e, embora com a cara amarrada dos demais, fomos. O outro jeep era operado por pessoal dos Fuzileiros Navais e o cara da EFORM era o Ivo. Lá chegando encontramos uma discussão acalorada e o Ivo com uma nota de 100 cruzeiros na mão (US$ 5,00 equivaleria hoje a 10dólares?). Custei um pouco a entender mas a questão era a seguinte: um senhorzinho pagou os Cr$ 100 à meretriz mas, não conseguiu dar conta do que pagou para ter, e queria o dinheiro de volta.


A discussão parece que começou acalorada com uns a favor, outros contra e foram parar na calçada justo quando o jeep do Ivo ia passando e a multidãozinha na frente parou “a policia” para que a justiça se manifestasse (sem ironia, as pessoas todas sérias, as partes também). O Ivo me olhando, aparvalhado, com a nota nas mãos. Eu já arrependido de ter ido lá socorrer o Ivo, minha guarda me olhando com deboche: “tá vendo, a gente disse pra não vir!”. Eu, já quase ao lado do Ivo, que não saía de cima do jipe, no meio da multidão (uns 50 que me pareciam 500) quando me veio uma inspiração divina: Salomão! Peguei a nota de 100 e dei duas de 50 para o Ivo e caí fora (o Ivo deu 50 para cada um e todos ficaram felizes, nos contaram depois). Quando a ronda terminou nos encontramos no cais, todos já rindo da noite sobrevivida. Ganhei um bom abraço do Ivo, que não esqueço, e fomos todos dormir o sono dos justos com o dever cumprido. Literalmente.


No dia seguinte Emiliano e Engel dividiram o aluguel de um carro (um fusca) e foram conhecer Salvador, pegaram a orla e, sentido norte! A cidade terminava na altura do que é hoje o Rio Vermelho. Ali deram carona a duas baianinhas que queriam ir para as praias mais desertas. Passaram pela altura da praia denominada “Placafor” e chegaram na então deserta Stela Maris, onde “acamparam” e se banharam por um bom tempo. Na verdade, as meninans abusaram dos aspirantes, pois logo ficou patente serem muito mais experientes no assunto. Pode-se dizer até que os aspirantes foram currados. Não chegaram a dar queixa na polícia pois, à noite, havia que visitar o tal de Anjo Azul, boate da moda, e queriam aparecer parecendo adultos, com as moças a tiracolo, tomando o tal drinque chamado xixi de anjo, servido em lindos peniquinhos de cerâmica. Assim fizeram e ficaram com a maior moral perante o restante da plebe ignara, metida a entendida mas chupando o dedo. Eram os rituais de passagem à vida adulta.


De Salvador, fomos a Santos onde, que me lembre, houve um episódio complicado com um aspirante complicado, o “reizinho”, não vou lembrar o nome dele. Esse aspirante entrou na EFORM pela janela. O pai era almirante e o “reizinho” não passara nem no exame para o colégio naval, nem para a escola naval nem para nada, mas queria muito ser da marinha, então o pai mexeu uns pauzinhos e conseguiu dar um jeito. O “reizinho” foi incorporado na turma de intendentes da EFORM. Naquela época a lógica prevalecia sobre o politicamente correto e só eram aceitos nos fuzileiros e na armada pessoas com condições físicas mínimas. O objetivo era ganhar as guerras, não dar emprego e perder as guerras. Pessoas fora dos índices de peso, fôlego, visão, audição, etc. não eram aceitas. Quando no limite, eram colocados no quadro de intendentes. Todos achamos que o Reizinho não se enquadrava nem nos limites da intendência, mas estava lá. E estava contentíssimo, vibrando com tudo, o que desarmava a todos e ele acabava sendo tratado como uma pessoa qualquer.

Então, inadvertidamente (ou não), incluíram o Reizinho numa patrulha em Santos. O Reizinho não se fez de rogado e assumiu o comando do jeep, e o sargento ”deixou prá lá”. Quando, iam passando na “zona” se deparam com um cafetão batendo em uma “protegida” e, a protegida, ao ver a “policia”, correu para pedir ajuda. O Reizinho, tendo ouvido as estórias de Salvador e do folclore marinheiro resolveu bancar a polícia e a justiça na terra, e interveio.


O cafetão, mais esperto, vendo que era uma patrulha da MARINHA e como nem êle nem a protegida eram da esquadra, não seriam da alçada da patrulha, desacatou o Reizinho. O Reizinho ficou fora de si, surtou, sacou a 45, deu um tiro para o ar e encostou a 45 na testa do cafetão, mandando-o se ajoelhar e a um dos marinheiros da patrulha colocar as algemas no cafetão. O sargento desesperado tentando acalmar o Reizinho mas ao mesmo tempo com medo da 45 (e do pai do Reizinho, suponho). Nisso chegou a policia de Santos, provavelmente acionada por outro cafetão ou algum olheiro, mas evidentemente do lado do cafetão. Argumentação de que aquilo era uma irregularidade, etc e tal, mas o Reizinho fez questão de levar o cafetao “andando” até a delegacia, algemado ao jipe, com uma multidão em torno, a maioria ovacionando. Soube no dia seguinte pelo Barros (vulgo Mazzaropi), aspirante fuzileiro, que estava no outro jeep e viu tudo. Queria ter visto.


Por causa desse episódio o Reizinho acabou desligado da nossa turma. Ouvi dizer, mas não sei ao certo, que ele teria concluído a EFORM alguns anos depois e “incorporou” à Marinha como 2º tenente intendente


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro e cronista,

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