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  • Foto do escritorMiguel Fernández

Reflexões

Atualizado: 8 de ago. de 2023

Com um copo de uísque na mão, meu amigo Charlie, hoje com 76 anos, falando sério, contava que Roberto Carlos (1941, capixaba de Cachoeiro), e seu parceiro constante, Erasmo Carlos (também de 1941, carioca da Tijuca), vivem em sua vida há muito tempo. E explicava: tanto pelas músicas, presentes nos momentos emocionalmente importantes, quanto pelas letras, como cronistas da alma e / ou dos incertos corações, juvenis, maduros e, agora, senis.


Acho que foi nos idos de 1965, com a aparição da Jovem Guarda, que os brasileiros dessa faixa etária os notaram. Erasmo faleceu em 22nov2022, e Charlie conta que pôde assisti-lo ao-vivo-e-a-cores duas vezes. Uma delas por volta de 1973, no intimista “Flag” em Copacabana, a outra vez quando completou 50 anos de carreira, comemorados com um show no Teatro Municipal do Rio em 2012.


Entretanto, por um motivo ou outro, só ontem, 29jul2023, pela primeira vez, Charlie foi ver um show do Roberto ao vivo. Não como já desejara, em uma mesa no desaparecido “Canecão”, onde nunca conseguira ir. Ou porque se esgotaram as entradas ou porque era um preço que não cabia no seu orçamento. Ontem foi no tal do “Jeunesse Arena”, enorme ginásio, herança das Olimpíadas do Rio, onde Charles nunca tinha ido (nas olimpíadas fomos ver um jogo de basquete num “estádio” vizinho e menor).


Por não conhecer o local, e porque comprou em cima da hora (dois dias antes), naquela de que “nunca fomos ver o Roberto”, comprou dois assentos num tal de N3, que significa Nível 3. Ou seja, como chamam por aí, no poleiro, onde o preço, por assento, era aproximadamente US$ 62, como ancião (idoso é mais bonito? então tá), saiu pela metade: US$ 31. Os assentos eram numerados, mas os bilhetes não, então as pessoas sentavam conforme iam chegando. Nas cadeiras (térreo) seria US$ 200,00 por pessoa.


Charlie queixou-se que os arquitetos que projetaram e que os que aprovaram o projeto devem ter pensado que os espectadores também eram todos atletas olímpicos: a altura de alguns degraus inevitáveis era de 50cm, a continuidade de corrimãos para as pessoas se apoiarem e o espaço para transitar nas fieiras de cadeiras era mínimo. Um absurdo, sem acessibilidade. E nas paraolimpíadas, como terá sido? Ironizou com o humor negro que o acompanha sempre.


_ Mas xará, a cordialidade e solidariedade de todos no poleiro, é emocionante. Tudo gente do bem. Muitas famílias levando os seus idosos. Era nítido que, para muitos, deve ter sido um sacrifício pagar para assistir aquele evento. Muitos idosos com andador, bengalas, curvados e hesitantes, uns se apoiando nos outros para realizar um desejo, uma ilusão: ver o Rei ao vivo. Muitos vestindo e calçando o melhor que podiam reunir, no orçamento insuficiente, no gosto duvidoso e nas mãos calejadas e corpos disformes das mulheres trabalhadoras da periferia, sob olhares complacentes de alguns, intelectuais aburguesados, que ali estavam por obrigação para com pais e avós, ainda bem, mas meio que envergonhados, se achando “pagando mico”.


Com todos os detalhes, pessoas boas querendo tornar aqueles momentos tão bonitos em momentos inesquecíveis, coroando uma vida de admiração pelo ídolo, o “lá-de-cima” ajudou, até porque a última música era para Êle, e tudo transcorreu bem, deu tudo certo, pelo menos o Charlie não viu nada errado. Só registrou que nenhuma daquelas senhorinhas do poleiro, de bengalas e andadores, molhadas da chuva, recebe rosas.


Foram duas horas de show, a uma distância que mal se via o artista, exceto pelos telões, mas duas horas, que todos ali presentes se encarregaram de transformar em momentos mágicos, coisa inesquecível, cantando junto as músicas, repertório previsível e perfeito. Era o que todos queriam ouvir.


A “platéia” foi conduzida pelas letras à sua juventude, à iniciação amorosa, umas mais platônicas, outras nem tanto, às decepções e às complicações amorosas. Aos acertos, às dúvidas, aos êrros vividos. Coisas que o pensamento e a memória guardam e que ninguém quer confessar nem para si. Ou que quer contar para todos, mas algo não deixa, ainda bem, olha o respeito! Ainda bem que o outro, a outra também não contam, também acham que é melhor, fingir esquecer. Amor é sexo? Sexo é amor? (alô, alô Jabor, Rita e Carvalho)


Em duas horas, olhando ora para o Roberto, ora para os rostos no entorno, ora para dentro de si, Charles percebeu que todos, estavam ali em comunhão de espírito. As mulheres repassaram os seus antonios, seus josés, seus silvios, seus aristeus, algumas as suas veras, acontece, os armários vão abrindo. Os homens repassaram suas marílias, suas enians, suas marlís, suas helenas, suas lorenas, alguns os seus eduardos, tem de tudo. Sem esquecer o(a) amado(a) amante.


Lembra? Roberto também era o “rei dos motéis”, ninhos do amor que surgiram, ou proliferaram, na mesma época da pílula anticoncepcional e da Jovem Guarda, que fazia o som ambiente, preferencialmente com Roberto & Erasmo. Tudo côncavo e convexo.


Quantos casos tentados? Quantos fictícios? Quantos foram verdade? Quantos foram mentira? Quantos sonhos inconfessáveis? Quantos ciúmes desnecessariamente necessários, prá lá e prá cá. Mas os autores dos versos das músicas parecem conhecer tudo, e se tornam cúmplices.


Durante o show, parece que o gravador de sua vida é rebobinado, fazendo aquele barulhinho de fita voltando em alta velocidade. Não dá para entender nada, mas você sabe que sua vida está ali resumida, e que o importante é que emoções você viveu. Se foi bom ou foi ruim, o que interessa é que foi sua vida. Antes mal-acompanhada(o)-do-que-só, aconselhava a sábia avó. E de que vale tudo isso, se você não está aqui?


Xará, o Roberto já com seus 82, voz dando conta do recado, estampa de artista que cuida da aparência, cuidadoso com a postura no palco, coisa de profissional, devia estar fazendo as mesmas conjecturas que eu, lá no poleiro: até quando? olhei para êle e, telepaticamente, disse:


_: eu te proponho, dizer mais nada...”


E já com as idéias embargadas, pensei: presta atenção, esta é a nossa estação, vamos descer agradecendo a viagem, nesta espaçonave tão boa, com trilhas sonoras e poéticas tão lindas.


Acredita amigo, saí de lá balbuciando: obrigado Roberto, obrigado Erasmo.


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro e cronista,

6.100 toques




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