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"Sinto, Obrigatório", sobre Proibições, Obrigatoriedades e Liberdades

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 14 de out. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 16 de jan.

No primeiro semestre de 1989, no Jornal do Brasil, o genial Millor Fernandes vinha abordando o assunto "Cinto de Seguranca", de maneira que além de defender a não obrigatoriedade do uso do cinto parecia avancar pela defesa da nao utilizacão o que a meu ver tornava a posição pouco sustentável.

Mas, eis que surge um senhor chamado Robert, residente no Rio de Janeiro, em carta publicada no JB de 02jun89, identificando-se como presidente de multinacional (mas sem identifica-la), que deu a conhecer uma novidade preocupante: "exige como condição de emprego ou contrato, o uso do cinto de segurança", enquanto critica o Millor de forma inconsistente.

Ora, estava ali um excelente tema para investigacão jornalistica que o JB e o Millor deixaram passar. Será?

Que mais exigira o senhor Robert para "conceder" empregos ou contratos em "sua" multinacional, tao preccupado com a seguranca dos "empregados, familiares e pessoal contratado"?

Uso de anticoncepcionais? Limitacao do numero de filhos? Alimentaçao padronizada? Moradia e escolas dignas para todos seus "empregados, familiares e pessoal contratado"? Nao passar fome? Estou curioso.

Havera, nos seus contratos de trabalho, limites para esforcos físicos e mentais? Limites para nao ter "stress" e morrer antes de um acidente de automovel? Seria lamentavel morrer antes de ter um acidente de carro com um cinto que o protegesse, provando as teses do Sr. Robert?

Certamente nao se podera fumar na empresa "do" Sr. Robert, nem alimentar-se com comidas gordurosas ou usar bebidas alcoolicas. Passar mais de um ano sem ferias ou fazer horas extras, mesmo que a empresa precisando, nem pensar, tao preocupado esta o Sr Robert com a vida de seus "empregados, familiares e pessoal contratado".

Alias, por que terá o Sr. Robert diferenciado "empregados" de "pessoal contratado"? Castas? Escravos?

Nada contra multinacionais: fornecerem meu cigarro, meu scoth, minha alimentação (os colesteróis do MacDonalds!), que fumo, bebo e como quando quero, e não fumo, não bebo e não como quando não quero.

As multinacionais como as do sr Robert fornecem ainda os carros e os combustiveis poluentes. Os mesmos carros sem os quais nao estariamos aqui filosofando em funcao dos cintos de seguranca serem ou nao obrigatorios ....

Agora, pessoas como esse senhor, independente de nacionalidade e empregador, que querem obrigar os demais a cumprirem rituais originados de suas verdades e suas "neuras", incomodam porque dao a sensacao de querer tirar nossas liberdades individuais. Professores de Deus.

Liberdades individuais, que não afetam ninguém além do interessado, são liberdades sagradas. E estamos assistindo coisas como essa dos cintos de segurança e da campanha contra o fumo que demonstram as teses do Goebbels na Alemanha e do Orson Welles nos EUA: com a mídia e a "propaganda" consegue-se manipular o coletivo, seja para o histerismo, seja para o ridículo, seja para o bem e seja para o mal. Os linchamentos, físicos ou morais, so acontecem com grupos se sentindo em maioria (mesmo que não o sejam). É a psicologia das multidões, quer estejam em aglomerados em praças, quer dispersos em diversas residências mas assistindo e ouvindo o mesmo locutor ou o mesmo mandante, resultando em comportamentos "de bando", "de manada" que me dão medo, seja qual for o pretexto.

Mal, comparando, mas apenas para expor o absurdo, parece que vao acabar querendo proibir os suicidas de se suicidarem. A que distancia estamos da "Republica dos Bichos" do George Orwell?

Será que o senhor Robert estende suas convicções e preocupacões também a seus clientes? Já pensou? "Se o cliente não colocar o cinto ou não escovar os dentes de manhã, não vendo para êle" ...

Que tal o senhor Robert identificar sua empresa, para podermos conferir a

coerência de suas preocupações?

Vamos reagir contra esses que nos querem acorrentar. Nos domesticar. Nos condicionar. Comeco a entender melhor o Millor: "vamos comecar a defender o nao uso

do cinto ao menos para equilibrar as coisas".

Em tempo: eu uso cinto de segurança, por conviccão, mas defenderei (não até a morte que nao e para tanto!) o direito de quem nao quiser usa-lo a nao usa-lo. Até porque o mundo ta muito cheio e umas mortezinhas a mais podem fazer bem ao planeta.

Mas talvez esteja mais perto o dia em que estaremos todos "rastreados", dotados de cintos, antolhos, arreios, selas ... e felizes por estar na boiada, no cardume, no rebanho ou séquito .... quem viver verá.

Jun1989, Miguel Fernandez


Rio de Janeiro, em carta ao Jornal do Brasil, em junho 1989, nunca respondida, nem publicada.
Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em jun1989,  9.054 toques


OS. em 2020, reunindo material que tinha escrito e guardado ao longo da vida, encontrei este texto, procurei no "google" e soube que esse Sr. Robert (Robert A. Broughton, estava no recorte de jornal guardado) era o presidente da Shell no Brasil, logo a Shell, que ganhava dinheiro queimando carbohidratos e prejudicando nossos pulmoezinhos .... e anunciando no Jornal do Brasil. Aproveitei para mudar um pouquinho o titulo da cronica ... era Cinto de Seguranca ...


 
 
 

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