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Xingando no trânsito, a feia

Foto do escritor: Miguel Fernández
Miguel Fernández
3 de set.
2 min de leitura

Era uma manhã de 1998, êle ia saindo de casa na rua sem saída onde morava (Av São Sebastião).

Uma rua longa e estreita com carros estacionados dos dois lados, que exercita a tolerância, a paciência e o bom senso dos moradores e frequentadores da rua todos os dias.

Como todos os “cul-de-sac” do mundo, a preferência é de quem está saindo da rua. Se não fosse assim os impasses seriam insolúveis.

Então, a praxe é que, quando dois carros se avistam o que estiver mais próximo a uma entrada de garage se refugia ali e deixa o outro passar. Na dúvida o que está saindo avança e o que está entrando se refugia em uma entrada de garage.

Foi então que avistou um carro que vinha entrando, e avançava em sua direção com uma velocidade temerária para as circunstâncias e ignorando diversas vagas para recuar / refugiar, e êle não tinha nenhum, refúgio para si, até que os dois carros tiveram que parar frente-a-frente. Certamente era um visitante, não habituado aos procedimentos civilizados.

Criou-se o impasse e um dos dois precisaria dar marcha-a-ré até o refúgio mais próximo.

Como o carro que vinha entrando passara por diversos refúgios, mesmo vendo que um carro vinha saindo, e como o refúgio mais próximo de cada um era muito mais próximos do carro entrando que o do seu carro, que além disso estava saindo, achou um abuso o outro carro forçar aquela situação e estava pensando como proceder, quando o outro carro buzinou irritado.

Aquilo foi demais e tomou uma decisão: puxou o freio-de-mão do seu carro, pegou o jornal matutino (JB) que estava no banco do carona, e pôs-se a ler o jornal de forma acintosa, mostrando que ou o outro recuava ou iam ficar ali para sempre.

O outro carro acabou dando a ré para o último refúgio que havia ignorado, à direita de quem dirige para a frente.

Com isso êle botou o jornal de lado e avançou. Quando ia passando pelo outro carro, viu o motorista do outr carro (era uma mulher).  Além de ver, ouviu umas imprecações gritadas: _  seu viado, seu merda, etc.   a senhora tinha farto vocabulário.

Como ele passava lentamente, como a rua exige, pisou no freio e parou ainda ao lado do outro carro, que  ficou retido no refúgio onde estava. Percebeu que a mulher levantou o vidro parcialmente com medo de uma represália física, mas deu bastante tempo para observar a motorista praguejante.

Atrasado, atrasado-e-meio, resolveu retrucar e falou com a voz mais serena possível:

_   Eu ouvi, mas não vou nem dizer nada, a senhora é muito feia.

Até hoje se arrepende de ter dito isso. Devia ter xingado a mãe dela, qualquer coisa, menos chamado a senhora de feia. Como ela era realmente muito feia, quando êle disse isso notou o olhar dela desabar, de uma forma que o desconcertou e, até hoje lembra e pede perdão a Deus por ter dito aquilo. Sentiu que havia atingido a alma da pessoa, e não era para tanto.

 
 
 

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