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Sinpapeles

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 16 de fev. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 20 de fev.

Uma vez ouvi o saudoso João Saldanha tentando explicar por que os locutores esportivos falavam tanta bobagem: “vai lá falar 90 minutos seguidos sem parar, se não o ouvinte pensa que a rádio saiu do ar e muda de estação, vai acabar falando besteira, vai…”

Lembrei disso depois de tanto ouvir (e ler) nos “meios de comunicação”, que o CT do Flamengo não tinha um determinado “alvará” (como bons rivais rivalizam em tudo, parece que os CTs do Vasco, Botafogo e Fluminense também não têm o tal “alvará”).

Como se não bastasse, fomos fartamente informados, com detalhes, que o supermercado que pegou fogo em Madureira esta semana, com dois mortos, tinha alvará de mercearia e de padaria, mas não de supermercado!

E o helicóptero que caiu com o Boechat tinha a papelada toda em dia, podia fazer reportagens e inspeções aéreas com jornalistas ou técnicos a bordo, mas não estava licenciado para transportar passageiros. O Boechat naquele voo “estava” passageiro! Irregular, portanto.

Dá a impressão de que o repórter acredita que se os alvarás corretos estivessem lá, as catástrofes não teriam ocorrido, e a opinião pública, das pessoas mais simples, que são a maioria, passa a achar isso!

Como nada é tão simples assim, a barragem de Brumadinho tinha todos os papéis em dia, inclusive alvarás e as papeladas do CREA (Conselho Regional de Engenharia), tornando, então, inexplicável o ocorrido (essa contradição não tem sido devidamente registrada).

O jornalista e escritor Sérgio Porto, o Stanislaw Pontepreta, contemporâneo de Saldanha, que escreveu por volta de 1968 o livro “Fê-Bê-A-Pá“ (O Festival de Besteiras que Assola o País), não perdoaria os coleguinhas.

Me pergunto se os profissionais que se dedicam a esses comentários e análises o fazem por falta de assunto ou por limitação intelectual, porque hoje em dia, com o VT e a “edição”, não há mais a desculpa do Saldanha. Ou será que os jornalistas, como os engenheiros, andam tão mal pagos que só se conseguem pessoas inexperientes ou de baixo QI, resultando nesses “focas de campo” que só conseguem enxergar essas bobagens?

Essas coisas evidenciam que nossa propensão à burocracia e ao besteirol é incomensurável.

A xenofobia que o diga. Pessoas perseguidas, sem ter para onde ir, ou meramente com fome, que porventura aqui cheguem, enfrentam uma “via crucis” enquanto não conseguem reunir a desnecessária papelada. Enquanto isso, nos irritamos quando compatriotas passam o mesmo lá fora. Na Catalunha (Espanha), um brasileiro imigrante ilegal, que se mantem anônimo certamente por tolerância de alguém “esclarecido” do Estado, está ficando famoso por pichar paredes com uma palavra que resume tudo isso: SINPAPELES (sem documentos). Documentos de identidade, mesmo que provisórios, devem ser concedidos com rapidez e simplicidade, tanto por atitude humanitária quanto por controle de presença evitando a clandestinidade.

É preciso entender que registros ou papéis de CREAs, CRMs e similares são meramente arrecadadores e inúteis. Ninguém tem o “dom” da engenharia ou da medicina porque está obrigatoriamente registrado em um conselho. Fizeram os jornalistas muito bem ao não aceitarem a burocracia de um conselho de classe. Precisam ajudar as demais áreas de atividades a se libertar desses burocratas anacrônicos, não a valorizá-los.

Ficar calado pode ser politicamente correto, pode ser medo de represália, mas fica parecendo que a vida inteligente vai desaparecendo. SOCORRO!!!!!!!


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 2019fev16,  9.054 toques


 
 
 

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