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  • Miguel Fernández

Ciúmes Étnicos no Altiplano (CE2, Xenofobia)

Atualizado: 12 de Nov de 2019

Por volta de 1990 me envolvi no projeto e na supervisão da obra e da “partida” (puesta-em-marcha) da “tubulação adutora Hampaturi a Pampahassi”, a 4.000m de altitude que, desde 1995, abastece La Paz com água proveniente de degelo dos Andes. Financiamento BID, diâmetro interno 800mm, extensão 15km, em FFD-PB (Ferro Fundido Ductil – Ponta e Bolsa), PN40 (no mundo até então o máximo era PN25). Nessa época fui à Bolívia umas 15 a 20 vezes.

Um “visto” para trabalho na Bolívia levava 3 a 6 meses para sair, e era uma confusão burocrática (sudamérica é filial Ibérica). Conclusão, viajávamos todos (franceses, brasileiros, alemães e um uruguaio) com “visto de turista”. Como cada visto só valia para uma entrada quem ia muito era comum ter problemas na “imigração

Nosso contato lá usava uns “despachantes” organizados em ONGs que dava certa “cobertura” no aeroporto. O pessoal da aduana, ao mesmo tempo que fazia vista grossa para não atrapalhar os negócios acredito que em troca de alguma participação, ao não encontrar nada, ficava irritado se achando ludibriado. Na cabeça deles o pressuposto era que você ia “levar um pó”, o que elevaria o “pedágio”.

Como eu fui, de longe o que mais viajava para lá, fui o primeiro a ter problemas. Numa das minhas chegadas, o encarregado olhou o passaporte cheio de entradas em La Paz, chamou um jovem policial e me encaminhou para uma tal “sala 11”, num canto do mini-terminal do aeroporto que até me pareceu familiar (igual às de muitos filmes do gênero “Expresso da Meia-Noite”).

Depois de um bom tempo ali, esperando, comecei a achar que a burocracia de 3 a 6 meses para o visto de trabalho teria sido mais sábio. Finalmente entrou o “inquisidor”, um tipo típico em qualquer lugar do mundo, creio que eles também vêem os filmes e incorporam os personagens. Sargento Hurtado, se chamava. Sentou na única cadeira em uma mesa tipo carteira escolar e com eu em pé, tendo meu passaporte nas suas mãos e olhando na minha cara com um sorriso de “te peguei – dependes de mim” perguntou:

_ que tanto vienes por acá? Comércio?

Sem dizer nada a ninguém, bobamente, eu havia inventando um enredo “brilhante” para explicar porque ia (e iria) tanto a La Paz:

_ és que tengo uma “novia” acá.

Cara de surpresa e irritação do Hurtado. Lendo os pensamentos dele (que eu não esperava):

_ “Esse puto brasilero tá vindo aqui comer nossas mulheres e ainda fica rindo na minha cara! Vou fuder com ele”

Me arrependi da história na hora pois não tinha previsto esse viés, mas não havia como voltar atrás...

_ Donde está la “noivinha”? Esperando en el aeropuerto?

o aeroporto de “El Alto” muito pequenino e com poucos voos por dia, pela demora já devia estar deserto.

_ La novia es casada, yo soy casado y de eso no puedo hablar.

Cara de mais surpresa e mais irritação, desta vez acrescida de curiosidade desconfiada. Não falou mas deu pra perceber: seria a mulher ou a filha dele?, a irmã?, a vizinha? Então disse:

_ vou chamar o consulado e a embaixada Brasileira agora aqui e extradita-lo hoje mesmo.

_ por favor, não faça isso, pode me trazer muitos problemas.

De repente tudo muda, ele interpreta que minha amante era da embaixada, logo também brasileira e, já com cara de cumplicidade disse:

_ ah! É brasileira também?

Entrei no jogo

_ é uma situação muito delicada, o que posso dizer? Ponha-se no meu lugar, o que faria?

_ sorriso largo, já filando um cigarro do meu maço e me conduzindo para fora com cara de velho amigo e cúmplice: “nosotros los fumantes devemos ser unidos, bienvenido, enjoy!

Incrível! Inacreditável! A partir desse dia os funcionários do aeroporto me conheciam, me olhavam com admiração, com sorrisos cúmplices, eu era passado como VIP, só faltava aplaudirem. Sabendo o que era, ficava completamente sem jeito. Acho até eu corava. Enfim, vida que segue

Um ano depois e muitas viagens e passagens pelo “El Alto”, em um bar de La Paz, à noite, eu estava com a turma da SAMAPA (Águas de La Paz) e cruzei com o Sargento Hurtado, que conhecia meus amigos. Estavamos todos já um pouco “altos” (sem trocadilho, por favor). Rimos um bocado. Esclarecimentos feitos, olha o comentário dele:

_ Como no aeroporto todos ficaram sabendo da história sempre que o pessoal da embaixada brasileira passa pelo aeroporto ficamos observando e concluímos que o embaixador tem cara de corno mesmo. Se não é você, alguém além do marido tá comendo a embaixatriz com certeza.

O embaixador de então que me perdoe. Se for o caso...

Miguel Fernández y Fernández, Engenheiro Consultor, cronista e articulista,

escrito em 09set2019, 4.448 toques

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