Xingando no trânsito, o subdesenvolvido

O Erik chegou no escritório aborrecidíssimo e foi logo desabafando:
_ Tô sem dormir desde ontem. O cara me chamou de “subdesenvolvido” porra! Podia ter xingado minha mãe, me mandado à merda, podia me chamar de viado, de palhaço, de cornudo, podia até ter me agredido, mas não, o cara me chamou de “subdesenvolvido”. Se deu ao trabalho de arriar o vidro do carro dele pra me chamar de “subdesenvolvido”! Filho da puta.
_ calma Érik, o que houve? Como foi isso?
_ ontem, quando saímos aqui do trabalho, eu ia pra casa na minha moto quando o trânsito parou ali na beira da Lagoa, quase na curva do calombo, não passava nem moto. Aí eu tive a infeliz idéia de seguir outras motos pela calçada na direção de Ipanema. Imediatamente montamos um engarrafamento de motos na calçada, pois tivemos de parar por causa de pedestres, corredores, ciclistas, carrinho de pipoca, e até carrinho de bebê.
_ Um cara do engarrafamento de carros, parado ao meu lado, abaixou o vidro do carona e gritou pra mim: “seu subdesenvolvido”. Pegou no fundo da minha alma. O cara tinha toda razão. Até então eu me sentia um cara acima da plebe. Não paro de pensar nisso...
_ fica frio, só de voce reconhecer o êrro já valeu...
_ mas eu tô sentindo que aquele grito vai me acompanhar o resto da vida...
Bom arquiteto e bom caráter o Érik. Isso foi por volta de 1978 a 80. Não o vejo há mais de 30 anos. Sei que ainda anda por aí.

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