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A Colação

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 11 de dez. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de jan.

Foi no fim do primeiro ano do curso de engenharia “do Fundão”, em 1966. Eram 4 turmas de ~100 alunos cada, duas pela manhã (A e B) e duas pela tarde (C e D). O locutor que vos fala era da turma A.

O professor de cálculo infinitesimal da turma A era um tal de Tourinho, engenheiro da Rede Ferroviária Federal que, alegando precisar comparecer a um congresso no exterior, sobre locomotivas, ausentou-se deixando as provas finais por conta do professor das turmas B, C e D, o Prof. Radival, também conhecido por Almirante Radival, talvez porque fosse de fato Almirante, talvez porque também era professor da Escola Naval. Merece registro que havia um professor assistente, o Raymundo de Oliveira, com fama de haver sido expulso do ITA porque seria comunista. Anos depois, Raymundo veio a ser Presidente da CEDAE e do Clube de Engenharia, excelente colega e amigo.

Cálculo infinitesimal era uma cadeira considerada difícil, cabulosa, e que reprovava muito. O livro-adotado era “Cálculo I, do Thomas” mas tinha quem preferisse estudar pelo Granville. Cada um do tamanho de um tijolo, apelido desses livros.

O Radival não se fez de rogado e marcou a prova final para os cerca de 250 alunos (os demais tinham passado direto), nas salas de prova do bloco A do Fundão, ali por fins de novembro. Todas as turmas junto, as duas da manhã e as duas da tarde.

O pessoal pensou logo: vai ser moleza “se dar bem”, ninguém consegue controlar direito cerca de 250 alunos em prova. Todo mundo “se achando”, afinal tínhamos passado num dos vestibulares mais disputados do país e já nem éramos mais considerados calouros. Já éramos “metidos” mesmo.

Então, para não perder a oportunidade, como era praxe, organizaram-se os “escritórios” de ajuda mútua, convocando colegas que já haviam passado e colegas mais velhos, para, no dia da prova, ficarem por ali apoiando.

Sentamos todos, como em todas as outras provas, cada aluno em uma cadeira com uma mesa, arrumadas e alinhadas, longitudinalmente em ~5 colunas (uma junto ao janelão e outra junto à parede oposta, onde ficavam as portas) e, transversalmente em ~10 fileiras, com ampla passagem-circulação entre as 5 fileiras longitudinais e boa distância entre as mesas, ou seja, cerca de 50 mesas por sala. Para atender 250 alunos, eram necessárias 5 salas.

Um professor-fiscal para duas salas.  Nem acreditávamos.  As provas chegaram empacotadinhas, arrumadinhas, numeradas e constituía-se de uma página mimeografada frente e verso, com 10 questões, na verdade 10 equações polinomias, para serem derivadas ou integradas e, finalmente a resposta indicada em seis opções de resposta para cada questão, tipo múltipla escolha.

As listas de presença circularam organizadamente, numeradas e assinadas. Transcorreu tudo normalmente, dentro da lei e da ordem.

Foi uma “colação-geral” exemplar, muito bem planejada. Para não perder tempo, 10 colegas que sentaram perto das janelas, ficaram encarregados de, cada um copiar uma das dez questões em papeizinhos e joga-los, pelas janelas. O pessoal da turma que já havia passado, e outros mais velhos, recolhiam lá em baixo, resolviam as questões e penduravam a resolução em linhas tipo de pesca, previamente colocadas e que eram recolhidas mediante algum assovio codificado no momento em que algum colega chegava na porta para, fingindo ser do Diretório Acadêmico, fazer algum convite ou pedir que o professor fizesse algum aviso. Ou então passadas pela junta de dilatação que atravessava uma das salas de prova com um aluno dentro da parede dupla fazendo a intermediação. Também havia discretos orifícios, abaixo das mesas, perfurados com furadeiras nas paredes para passar folhas de papel enrolado em canudinho com os tais fios. Cada escritório tinha suas preferências. Altas tecnologias, grandes emoções, iniciativa, criatividade, aprendendo a conviver com dificuldades, com a realidade, superar obstáculos, trabalhar em equipe, etc., etc...  Alguns tinham até justificativa ideológica, afinal o cara era milico, gorila impondo a ditadura (da marinha seria tubarão?), embora a presença do Raymundo justificasse o inverso, mas deixa prá lá.

Uma vez retornadas as soluções em papéizinhos: questão 1 resposta “c”, questão 2 resposta “a”, questão 3 resposta “f” (f era sempre nenhuma das anteriores) e por aí em diante, eram rapidamente distribuídas, democraticamente na sala, com toda a técnica e estado-da-arte para ludibriar os professores-fiscais.

Algumas das equações eram bastante simples de resolver, eu até fiz algumas, mas como o que é ilegal, o que é proibido e o que engorda tem uma capacidade de atração enorme, acabamos colando até sem precisar como um desafio a vencer.  A prova transcorreu normalmente com todas as nossas tecnologias funcionando conforme planejado, discretamente e eficientemente.

Fomos todos para casa comemorar o sucesso da empreitada. As férias seriam em liberdade total, cada um se achando mais que o outro.

Cinco dias depois saíram os resultados: das 250 provas, 200 eram nota zero!  Nota zero!

Não podia ser, um absurdo esse tal de Radival, que nem nosso professor fora pensava que era quem?

Todos pedimos revisão de prova.  Marcada para uma segunda feira 8h. Quando cheguei, já havia uma fila com uns 30 colegas no corredor do 3º andar do bloco A, sala 306, onde era o gabinete da cadeira de cálculo e onde se fariam as revisões.

Entrei na fila e não demorou 5 minutos saiu da sala onde se fazia a revisão o primeiro colega que havia entrado. Era o Gilson, repetente naquela cadeira (um ano mais velho), que eu conhecia bem pois morava perto de onde eu morava, em Botafogo e também frequentava o Clube de Regatas Guanabara. O Gilson me viu e disse para todos ouvirem: amigo, vamos pra casa estudar pra segunda época. Ninguém vai conseguir rever a nota.


_ Por quê?  O que houve?

_ O que houve é que o Radival foi mais esperto que todos nós juntos e nos fudeu.

Êle deu duas provas ligeiramente diferentes: as pares e as ímpares do pacotinho distribuído. Das 10 questões 5 eram iguais, mas 5 não eram, por exemplo, no segundo termo da equação dois uma era  sen-2  nas provas pares, e nas ímpares era  cos-2 ninguém prestou atenção, então tem resposta certa da prova impar na prova par e vice versa.  Uma vergonha ir lá discutir isso.  Melhor ir embora.


Fui para casa estudar, fizemos a prova em fevereiro, os que estudaram passaram, não houve perseguição, como alguns chegaram a alardear.

E aprendemos muitas coisas, a principal foi que sempre tem alguém mais esperto que os outros, principalmente dos que se acham espertos.

Esse professor Radival, foi um dos melhores professores que tive: sem ter-tido uma só aula com êle, me deu uma das grandes lições que tive na vida.  

Grande Radival.  Meu respeito e minha gratidão! Esta crônica é uma homenagem que lhe faço


PS:   Andei consultando alguns colegas sobre o evento mas o Eduardo Massa e o Josemauri Freire alegaram que sempre passaram direto em todas as cadeiras e que não lembram.  O Zé Soares de Mattos também alega que havia passado mas lembra do caso. O Tim Maia fez escola... Tô achando que só mantenho contato com os “avis raras” que haviam passado, talvez porque colavam nas provas mensais.

 


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de .Engenharia # 7.232 toques Rc

 
 
 

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1 comentário


José Adelmar de Mello Franco
José Adelmar de Mello Franco
16 de dez. de 2023

eu era um sonhador um dos mais tímidos que sei que existem. Matemática e Física eram a minha delícia. Isostática, Hiperistática, Concreto, o meu inferno, até que resolvi ser de fato engenheiro, mas o que passei a ater paixão foi a geotecnia. Nesta, cada vez mais, dei mergulhos mais profundos e me delicio, agora, quando estou nesse "mar"

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