Maria
- Miguel Fernández

- há 27 minutos
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Se conheceram por volta de 1977. Ela uns 27, era a secretária de um colega de profissão dêle. Êle com uns 30. Ambos solteiros.
Ela com cultura e beleza bem acima da média, olhos verde-mel, cabelos castanho-claro, belo corpo, jeito de mulher experiente e insinuante, atrevida até. Êle moreno, usando bigode para parecer mais velho, mais alto que ela uns 5 a 10cm, magro, descobrindo o mundo, inseguro para a idade, mas também atrevido.
Começaram a sair, escondido do patrão dela e colega dele. Porque? Não lembra. Mas gostavam de ir a lugares da moda, um exibindo o outro e cada um se exibindo. Uma vez, no Chico’s Bar, na Lagoa eu os vi entrar, os frequentadores até pararam para prestar atenção.
Como ela não estava sempre disponível para sair, êle supunha que ela teria outro. Um amante? Casado? De certa forma, era conveniente, pois ambos não pareciam estar interessados em assumir compromissos. Também justificava e/ou perdoava a consciência para saírem com outros(as).
Quando estavam juntos, era um acontecimento, uma agarração, uma sucessão de desafios, de emoções, de fantasias. Se ela saía de saia, tirava a calcinha na noite, no restaurante, no cinema, para sexo e / ou masturbação cruzada, no carro no sinal de trânsito, no estacionamento, na janela do apartamento, na escada do prédio.
O que mais encantava os dois, era quando, na cama, no apartamento dele ou no motel, êle deitado olhando para cima, ela o cavalgava, de frente olhando para êle, ou de costas, olhando para os pés dele, a critério dela. De costas então, com o, digamos, buraquinho de trás piscando para êle, chegava a ser uma maldade. Uma exibicionista, uma provocadora. Aqueles eram os momentos em que os dois sentiam que um fazia bem ao outro. E juntos.
Ela tinha arroubos poéticos. Um verso o marcou: “vou escalar teu corpo em contra-pêlo”. Mostrou a êle no papel. E depois, pôs-se a interpretar.
Gostavam dos mesmos assuntos, das mesmas músicas, dos mesmos compositores (alô Gonzaguinha), das mesmas comidas. Eram amigos. Confidentes? Um pouco.
E assim foram levando a vida por uns 3 anos. Por que se afastaram? Ela queria coisa melhor? Êle queria coisa melhor? Um mistério. Foi acontecendo.
Passado um ano sem se verem, um dia, ela telefonou para contar que havia engravidado de um dentista de ascendência japonesa. Parecia feliz no telefone. E lembrou que, em um dos momentos de conversas-de-confidentes, ela havia dito que gostaria de ter um filho com um japonês. E que o filho fosse só dela.
Êle pensou: Assumir um encargo desses sòzinha? Porque a eugenia? Que estranho! Achou que era um delírio, uma fantasia.
Não era.
Ela telefonou 25 anos depois para dizer que estava bem, que o filho passara no vestibular de odontologia, que sabia dele vez por outra e o sabia bem, que deixava um beijo. Não deixou telefone. Nunca mais soube dela. Melhor assim? Talvez.
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