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Fumantes 2

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 5 de jan.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de jan.

1997, NJ

Era outono de 1997, e resolveu passar uns dias nos USA, aproveitando para visitar parentes e amigos. Chegou em um sábado pela manhã, direto do Rio, via aeroporto de Newark, onde o esperava o Léo Goldblatt, colega e amigo dos anos 1971/72 em São Paulo. O Léo havia retornado à região onde havia nascido, em Paramus, New Jersey, levou-o para sua casa e foi logo dizendo:

_ Come algo, dorme um pouco para compensar o “jet-laeg” e vamos jantar fora. Alguma sugestão? Restaurante de carne? de peixe? massa?

_ Leo, podemos ir a um restaurante judeu? No Brasil não temos muito isso de restaurantes típicos, muito menos judeus, e tenho essa curiosidade. Na última vez fui ao Katz, em Manhatan e gostei.

_ OK, há um bom aqui perto, vou fazer uma reserva.

Às 19hs do sábado estacionaram e adentraram direto o tal restaurante, amplo e cheio, com gente esperando. Não fosse a reserva, não ia ser possível.

Sentaram-se os 8: Léo, o casal de filhos (Paul e Vivi) com cerca de 25 anos cada um, o Maurice, um vizinho que também falava portunhol e queria treinar, e as respectivas companheiras. Todos muito simpáticos, muito falantes, assunto é que não faltava. Êle e a companheira eram os únicos “goyim” (não judeus) na mesa.

Notou que o pessoal que atendia era quase todo de “meia idade” para cima, e pelos crachás e quipás, também quase todos da comunidade judaica da região.

Depois de uns longos 20 minutos, os cardápios sequer haviam sido distribuídos, nem colocadas as tradicionais jarras de água-da-casa dos restaurantes americanos. Notou que o Léo e o vizinho, começavam a se irritar com o não atendimento. Pelo menos uns “pickles” e uma bebidinha...

Então resolveu ir fumar na parte de fora do hall de entrada do restaurante, onde havia visto um pessoal fumando. Lá chegando, colocou o cigarro na boca e quando foi acender notou que uma senhorinha com uniforme do restaurante, a D. Sarah, não encontrava seu próprio isqueiro e se ofereceu para acender o cigarro da senhora, com idade pouco menor que a da sua mãe, que aceitou agradecendo e perguntou que marca de cigarro era aquele, na mão dêle. Era um Holywood Souza-Cruz, brasileiro legítimo.

_  Ah, brazilian? Are you lost here? (perdido por aqui?)

Rapidamente todos os fumantes entraram na conversa como se fossem velhos conhecidos, cada um tinha um conhecido que já tinha ido ao Rio de Janeiro, ou um parente que morava na South America. Perguntaram se êle conhecia o John Kaufman e, diante da negativa, foi olhado de cima a baixo como possível mentiroso, não devia ser do Rio nem da Argentina, como não conhecia o Kaufman?

Mas, fora esse momento de detetive do parente dos Kaufman, a conversa transcorreu muito bem, todos dizendo que queriam, assim que pudessem, ir a Israel e que a viagem seguinte seria ir à South America nas próximas férias, que o mar do Caribe era famoso.

Acabou presenteando a D. Sarah com o maço de Hollywood, quase cheio, que ela contemplava com grande interesse e que o aceitou com grande alegria.  Terminaram de fumar e voltaram para dentro do restaurante.   A mesa continuava sem ser atendida e o Léo já estava irritadíssimo.

Mal sentou, as coisas mudaram de figura. Comandados pela D Sarah, uns 3 funcionários trouxeram os cardápios, os acepipes de entrada, a famosa água, os pedidos foram anotados, sugestões foram feitas, enfim, a mesa tratada como VIP geral, a ponto de as mesas vizinhas ficarem olhando com inveja.

O Léo e o Maurice:

_  O  que houve aqui?

E êle:

_ Cara, confraria por confraria, minoria por minoria, perseguidos por perseguidos, os fumantes são a novidade do mercado. Mais vale ser fumante que judeu, maçom, negro, comunista ou LGBT.


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # Rd, 3.635 toques
 
 
 

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