Os "do contra"
- Miguel Fernández

- 20 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
Era 2023 e andaram querendo implantar um cabo de aço, paralelo aos dos “bondinhos do Pão de Açúcar”, por onde alguns entediados filhinhos de papai-e-mamãe, ensaiariam seus suicídios, pendurados em uma roldana (a tal “tirolesa”), competindo com outras bobagens tais como pular de pontes amarrado com elásticos pelos tornozelos, andar de montanha russa, se tatuar, enfim coisas que não dá para voltar atrás, quase todos se arrependem, ou não confessam ou não estão nem aí. É um sinal de alerta de sanidade ou mau gosto.
Antigamente, “tiroleza” era uma fantasia de carnaval barata e fácil de fazer, com a qual as crianças ficavam ridículas, mas as mães felizes, por ter fantasiado o filho, como outras mães faziam. Moda é moda, uma exigência da sociedade.
Daí que, na falta do que fazer, surgem grupos de burguesinhos, contra e a favor, da tal “tirolesa”. Tá na moda ser contra algo alegando preservar o ambiente.
Enquanto isso, os aviões que demandam o aeroporto Santos Dumont (SDU), infernizam alguns bairros da cidade e ninguém se incomoda nem toma partido.
Lembro disso porque a aproximação dos aviões ao SDU pelo lado sul quando os ventos assim obrigam (pouso e decolagem são sempre em contra-vento), força uma curva acentuada com as aeronaves ameaçando lançar-se, pela força centrípeta, sobre o sistema do caminho aéreo do Pão-de-Açúcar, logo também sobre a tal tiroleza. Se não for tão longe, cairá sobre alguma residência da Urca ou sobre o Forte São João, ou sobre a escola Eleva, também implantada sob protesto de gente que protesta por tudo.
Os “corredores aéreos” por onde transitam os aviões, são verdadeiros dutos virtuais e foram definidos há muito tempo (década de 40?) de forma a, organizando os aviões no ar, minimizar a probabilidade de choques entre aeronaves. A competência de quem fez isso é inegável, o transporte aéreo é ostenta o menor número de incidentes por passageiro transportado.
A manutenção desses “corredores”, quase sem alterações, sempre foi defendida pelo pessoal encarregado, por dois motivos principais: A> um deles parece razoável: “os pilotos estão habituados”, pressupõe que os pilotos estariam fadados a voar sempre as mesmas rotas, o que não é verdade. B> outro argumento, é lamentável, e se assemelha à preguiça: pode coincidir com algum acidente, o responsável pela alteração ser responsabilizado, vai dar muito trabalho e ninguém “tá” ganhando para isso.
Como atualmente todos usam GPS por imagem e pilotam com muita instrumentação automática, essas alterações podem ser muito mais fáceis e seguras. O “corredor” de acesso ao SDU, pelo sul, precisa ser mudado, não só para livrar os moradores de Laranjeiras, Flamengo, Botafogo e Urca, do excesso de ruídos (a curva é feita com os motores acelerados para dar sustentação) mas também para diminuir riscos. A aproximação pelo mar e pela barra da baía de Guanabara seria bem mais suave.
O que aqui se aventa não é novidade, o assunto já circulou outras vezes, mas aparentemente não foi adiante por oposição das companhias aéreas que, supostamente iriam gastar mais um minuto de voo de São Paulo até o SDU nas aproximações, quando o vento for no sentido norte. Ou seja, nem sempre. Não deve ter sido só isso. Primeiro porque, tratando-se de uma concessão. o Estado, o poder concedente, precisa cuidar dos interesses de todos. Por outro lado, o corredor pelo mar, como acontece quando a decolagem é para o sul (pouso e decolagem são feitos em contra-vento) e os aviões desviam do pão-de-açúcar para bombordo (para a esquerda, justo sobre a barra da baía), funciona muito mais suavemente, sem ruídos para a população que paga duros impostos.
As entidades “não governamentais”, podiam e deviam avaliar tecnicamente esse tema, muito mais interessante e mais importante para a sociedade que cuidar de alguns pseudo-suicidas brincando nas tirolesas. Aliás, se alguém quiser emoções intensas nesta nossa cidade de São Sebastião, pode optar por coisas “mais raiz”, como por exemplo transitar pela Av. Brasil.
Escrevo estas linhas, às 23hs de uma 4ª feira, após visitar um amigo que mora entre Flamengo, Botafogo e Laranjeiras (no Morro Azul), onde os aviões passavam a cada 3 ou 4 minutos, ininterruptamente, e onde iniciam a tangente da curva sobre a enseada de botafogo buscando a outra tangente, na direção da pista de pouso autorizado no SDU. Imagino os decibéis na Urca e no morro da Viúva.
Nos intervalos, quando conseguíamos nos escutar, o assunto principal da conversa com o amigo foi a perseguição dos ambientalistas à perfuração da Petrobrás na tal margem equatorial e o apagão ibérico, ao que tudo indica, relacionado com a geração de energia intermitente das eólicas e das solares, assunto tão ao gosto de ONGs e grupos de interesses, que se opõem a nucleares, hidroelétricas com lagos e térmicas convencionais, que já tornaram outras paragens tão ricas e desenvolvidas. Agora, que seria a nossa vez, nos convencem a não fazer nada para salvar o mundo, não se sabe bem de quê.
Ninguém reclama do não corte de uma árvore que ameaça cair sobre crianças ou prejudica a calçada. Ninguém reclama de ocupações ilegais desordenadas nem de excesso de população. Só se discute onde se acha que há algum dinheirinho por achacar? Onde há algo por atrapalhar?
Muitas ONGs, muitos interesses e muitos gestores que por aí proliferam, dificilmente se propõem a melhorar ou corrigir algo. Só querem proibir, dificultar. Quando estão a favor de algo, é para prejudicar outros. Por que será? Para quê será? Por quem serão?
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