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  • Foto do escritorMiguel Fernández

Suelly, a sinisdestra

Atualizado: 10 de out. de 2023

Suelly Svartman Printzak (incluiu o Printzak ao casar em 1967), nasceu no Rio de Janeiro em 1936, filha de judeus ucranianos, que vieram para o Brasil fugindo dos “pogroms”, da época do fim do império russo e início das repúblicas comunistas, ambos, épocas e grupos, com conotações antissemitas. Tem um filho, 4 netas e uma irmã, Miriam (carioca 1944), professora de francês.

Em 1959, aos 23 anos de idade, recém-formada em “letras” pela Faculdade Nacional de Filosofia, a FNFi, ingressou na carreia de professora de “Linguagem” (Português+Literatura) no Colégio de Aplicação da FNFi, o CAp.


Os Colégios de Aplicação eram onde os licenciados pelas Faculdade de Filosofia tinham aulas de didática, para obter o grau de professores. Para isso, os professores eram selecionados entre os melhores formandos, e os alunos, como nós, eram as cobaias que se aproveitavam desses “laboratórios”. No CAp só se entrava por concurso e, em caso de “repetir ano” por uma segunda vez, a matricula não era renovada, resultando, com esses dois filtros, um corpo discente de excelência. Um grupo difícil, pois muitos “se achavam”, mentes brilhantes. Devíamos ser insuportáveiszinhos.


Um grupo, no qual me incluo, foi aluno da Suelly de mar1961 a dez1965, do 3º ginasial ao 3º científico, dos 14 aos 18 anos. Desde o inicio das aulas, percebemos estar diante de alguém especial. Um espírito superior!


Um Professor acompanhar um aluno, por 5 anos, ainda mais na adolescência, é marcante. Sem nenhum demérito para outros mestres que nos ajudaram e nos moldaram, muitos de nós temos plena consciência da influência que Suelly teve na nossa construção, na nossa vida.


Na época, até os 14 anos, as leituras mais comuns eram dos autores Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Mark Twain, Karl May, Charles Dickens, Julio Verne, os fabulistas Collodi, Andersen, Grimm e La Fontaine.


Foi Suelly quem nos abriu o mundo do vocabulário, do estilo. Que nos fez ver que era preciso dominar a linguagem, pelo menos até que atinja a utopia da telepatia. Que as palavras são ferramentas fundamentais para construir frases inteligentes. Que nos fez ver a diferença entre língua e linguagem, e que, praticamente, as mesmas regras gramaticais, se aplicam aos diversos idiomas (línguas), o objetivo é expressar os pensamentos.


Enquanto nos aprimorava nas regras gramaticais, nos adjetivos, nos substantivos, nas preposições, nas concordâncias, nos gêneros, nos artigos definidos e nos indefinidos, nos verbos, presente, passado e futuro, transitivos e intransitivos, e no poço sem fundo das exceções, nos mostrava que o domínio da linguagem é que permitiria melhorar a interação entre pessoas, intercambiar conhecimento e raciocínio, aprimorar a inteligência. Quer fosse em assuntos filosóficos, quer científicos.


Matemática, Música e Pintura/Escultura, são formas de expressão com linguagens próprias e geniais, mas também é através da linguagem escrita (e falada), que podem ser transmitidas, enquanto se aprimoram. Para outras searas, como história, organização, filosofia, a linguagem é fundamental. para o bem ou para o mal, afinal, podem registrar verdades, inverdades ou até ajudar a enganar, às vezes só por enganar, aos mais crédulos e aos de menor percepção.


O ramo mais nobre da linguagem, é a literatura, a capacidade de registrar em palavras o raciocínio, o pensamento, o sentimento, a avaliação, a fantasia, a premonição. A paixão da Suelly era a literatura, em especial a ibérica. Anos depois, a escultura, mas isso não será objeto deste texto.


A paixão pela literatura era contagiante, e fazia com que nos interessássemos em ler ainda mais, para sorver os assuntos que ela trazia.


Naquela época, tudo se discutia de forma dicotômica e excludente (como ainda é hoje), desde como organizar os Estados, direita x esquerda, liberais x conservadores, comunistas x capitalistas. Se organizavam facções, grupos, partidos, em que palavras de ordem predominavam e eram (são) usadas para embaralhar idéias.


Suelly, sempre bem-informada, com sua inteligência, conseguia ter uma rara independência intelectual, sem ser neutra em nada. Isso chamava atenção. Muitos queriam ser assim, fugir dos estereótipos.


A adolescência é uma fase em que a personalidade ainda está em formação e as pessoas buscam pertencer a grupos, manadas, matilhas, cardumes, onde se refugiem e se sintam acolhidas. Seja em torcidas de futebol, em turminhas de bairro, em sociedades pseudo-secretas ou secretas, em compartilhar drogas e costumes, em crenças, em tradições, pseudo-ideologias, grupos políticos, no fundo em confrarias de ajudas e afirmação reciprocas, de onde muitos nunca mais saem, ou porque se acomodam, ou pela hierarquia rígida que não os deixa sair. Passam a ser soldados, não podem desertar.


Éramos uns poucos a ver, na Suelly, o modelo de liberdade e independência que queríamos (ou seria de independência e liberdade, diferença sutil, mas diferença, se me entendem).


Foi pelas mãos de uma Suelly engessada pelo currículo escolar obrigatório, que lemos os clássicos (alguns muito chatos): Machado, Cervantes, Eça, Manoel M Almeida, J Alencar, R Pompéia, A Azevedo, J Macedo, Euclides, J Amado, os poetas, Camões, C Alves, Cruz e Souza, F Pessoa, R Queiroz, enfim. Manoel Bandeira ela levou à escola para que o conhecêssemos pessoalmente e discutíssemos poesia, e os modernistas, os macunaímas, a antropofagia.


Também foi pelas mãos dela que fomos estimulados a desbravar as novas letras, sem rédeas: Nelson Rodrigues, Miguel Torga (Contos da Montanha, A Criação do Mundo, etc), Sylvan Paezzo (com o inesquecível Santa Rosinha do Mangue), os cronistas de então, Rubens Braga, Sérgio Porto, Fernando Sabino. Às vezes aparecíamos com coisas de gosto duvidoso e / ou fundo político como Dom Camilo (Giovani Guareschi) ou A Nova Classe (Milovan Djilas), ela dava uma olhada e fazia uma certa careta, como quem diz “sempre se aprende algo” mas não tentava direcionar nossas mentes nem colocar antolhos. Como sou grato por isso.


Nessa época, 1961 a 1965, em virtude das comemorações do 4º centenário da cidade, o Rio de Janeiro fervilhava de acontecimentos culturais locais, nacionais e mundiais de altíssimo nível. Marcou época o Festival Internacional do Filme (set1965), com a presença dos artistas e diretores mais famosos dos quatro continentes: Sofia Loren, Annita Ekberg, Ingmar Bergman, Fellini, Liv Ulman, Marlene Dietrich, Liza Minelli, Cláudia Cardinale, Brigitte Bardot, Alain Delon, Mia Farrow, François Trufaut, Peter O’Tole, enfim, os top da época.


Era quase impossível conseguir convites e entradas para as sessões de cinema daquele festival. Até a imprensa, o rádio e a televisão reclamavam, pois só conseguiam os muito importantes. Nas finais, no cinema Rian, na Av Atlantica 2964 (hoje é o hotel Pestana), era praticamente impossível comparecer. O Governador era o Lacerda e o secretário de turismo o Eng. Enaldo Cravo Peixoto.


Dias depois da final do festival a Suelly explicou porque tinha faltado na aula anterior (ela nunca faltava): tinha conseguido ir na final do festival, no Rian, na véspera. Paralisou a gente. Todos queríamos saber detalhes e todos passamos a nos sentir representados no festival. Lembro que alguém perguntou se a Anita Ekberg era tão bonita quanto se dizia e a Suelly respondeu:


_ não sei, não cheguei perto, nem deixei, ela chegar perto. Qualquer mulher perto da Ekberg fica feia, eu que não ia me arriscar perto dela.


Rimos todos juntos... Mais uma aula: “avaliação realista do entorno”. A Suelly não era nem linda nem feia, era bonita. E com 29 anos, na flor da idade, com a “presença” que ela sabia impor, devia chamar muita atenção da turma da faixa etária dela, especialmente os mais cultos e interessantes, como ela. Mas ao ver a Ekberg, achou melhor evitar comparações. Como devemos fazer sempre: lucidez acima de tudo.


Escrevo de memória, com alguma ajuda do “google” (como vocês pensam que achei o Enaldo de secretário?), objetivando inserir esta crônica em um livro-vídeo-documentário que se está organizando sobre o CAp registrando a época, o reconhecimento, o apreço e o carinho dos alunos pela importância da Suelly. Na 4ª feira, 13set2023, fomos, eu e o Fernando de Albuquerque, colega do CAp, gravar o tal do vídeo.


Antes de iniciarmos a “entrevista”, em sua casa, e com a presença do filho (também Miguel, homenagem a Miguel de Cervantes), estávamos conversando sobre a nossa “guru”, enquanto as cuidadoras a aprontavam (ela está com a saúde bastante frágil).


Nisso, o Fernando lembrou que fora expulso de sala umas 3 vezes, no ginásio, porque era muito irrequieto, o que hoje seria dito “hiperativo” e a mãe do Fernando seria instada a processar a Suelly por assédio moral. Rimos muito.


Já eu, lembrei que, ela me marcou pela percepção das coisas, destacando-se uma rara independência intelectual em todos os aspectos, sem ser neutra em nada e, ao mesmo tempo, fazia parecer trivial discordar em uma conversa. E que isso me impressionava muito, pois quase todos já tinham posições sobre quase tudo. Era difícil conversar com as pessoas no dia-a-dia, convictas de suas escolhas e sem argumentos.


Suelly era de esquerda e de direita ao mesmo tempo, sem ser de centro ou até sendo também, um pouquinho. Judia e não judia. Elegante e educada. Ríspida e grossa. Tudo isso sem ser contraditória.


O Fernando (que é canhoto) disse:

_ Ela era politica e culturalmente ambidestra,


o que o Miguel, filho da Suelly comentou:

_ Porque ambidestra e não ambisinistra? Isso é um preconceito com os canhotos!


E rimos... E concluímos:

_ Então ela é sinisdestra, pronto!


A palavra sinisdestra surgiu ali (já consultei o dicionário Aulete 2011 do Paulo Geyer / Lexikon e não tem a palavra). Vou escrever para a Lexikon, a Nova Fronteira (Aurélio) e para a Academia Brasileira de Letras e mandar essa, novo vocábulo da língua portuguesa e universal:


Sinisdestra, adj., pessoas interessantes, inteligentes e cultas, sem ser sectárias. sf exemplo: “sinisdestra como a Suelly” (ver M.Fernández in Retrovisor, crônicas, 2023);


Miguel Fernández y Fernández

Engenheiro, cronista e articulista, 2023set29 Ra.

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