José Capiano, A Forja, 1962dez
- Miguel Fernández

- 9 de fev. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
José Capiano
E agora. José?
O ano acabou.
Você não passou,
Seu pai se zangou
e agora José?
e agora você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros
você que faz provas,
faz testes, orais?
e agora. José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho.
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou.
a nota não veio,
o dia não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia (10)
e tudo acabou
e tudo fugiu
e você não passou,
e agora José?
E agora. José?
Sua doce palavra
Seu instante de febre
Suas notas e esperanças
sua biblioteca.
seus livros e cadernos,
seu terno do CAp.
sua incoerência,
seu estudo – e agora?
Com o lápis na mão
quer fazer a prova
não existe mais prova
Quer fazer oral
mas a oral acabou;
quer ir para a aula
aula não há mais,
José, e agora?
Se você estudasse,
Se você se sacrificasse
Se você gritasse
Se você não cansasse
Se você morresse
Mas você não morre.
você é duro, José.
Sozinho no mundo
qual bicho do mato,
Sem parede nua
para se encostar
sem cavalo preto
que fuja a galope
sem diploma na mão,
você marcha José.
José, para onde?
Para o "Monte Sinai"
P.S. - Homenagem aos colegas que se transferiram para o Instituto Monte Sinai.
Contexto:
Texto parodiando a poesia “E agora José, de Carlos Drumond de Andrade”, publicado no jornal A Forja, do Grêmio do Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia da UFRJ (antiga Universidade do Brasil), também conhecido como “CAp, ou o Aplicação da Lagoa”, no Rio de Janeiro, em dez1962. O autor terminava ali o então 4º ano ginasial e passava para o Colegial. Os alunos do colégio só podiam “repetir” uma vez, na segunda vez precisavam sair do colégio. Além disso era muito “puxado” e havia muitos que não passavam para o ano seguinte por não fazerem a pontuação mínima para tal. Isso os levava a procurarem outros colégios, conhecidos como pagou-passou, visando não “perder” um ano “repetindo”. O tal do colégio MonteSinai se notabilizou por essa fama.
Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 1962dez R2026janRa, 1.654 toques

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