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Congressos 1972, Paraguai, AIDIS

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 30 de jun. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 7 de jan.

O 13º congresso da AIDIS (Asociación Interamericana de Ingenieria Sanitária) foi em Asunción, Paraguai, em ago1972. Como é bi-anual significa que essa associação existe, pelo menos, desde 1946. Haja tradição!

Ir a um congresso de sua profissão é um objetivo atraente e interessante, mormente para os recém-formados, os iniciantes. Se o congresso for internacional então, o atrativo aumenta muito. O problema são os custos.

Na época, São Paulo tinha um ousado programa de Saneamento Básico, tanto pelo montante quanto pela organização institucional imaginada:

>> havia a COMASP, para produzir água tratada e fornecê-la, no atacado, aos municípios da RMSP e que construía o sistema Guaraú (+33m3/s!) e o SAM - Sistema Adutor Metropolitano,

>> havia a SANESP (idem COMASP, macro para esgotos no atacado),

>> havia a SBS, o FESB, o DAE, enfim, hoje tudo junto na SABESP.

Havia muitos recém-formados e, nessa “jovem-guarda”, muitas engenheiras. Isso é digno de nota pois, até então, a engenharia tinha pouca presença feminina. Dentre elas, três queridas e competentes colegas da SANESP: a Tônia, a Lúcia, e a Cecília.

Para ir a esse congresso, em Asunción, elas imaginaram um grupo em dois carros (na época significava dois “fuscas”), 3 pessoas em cada carro, como forma econômica de dividir despesas, com espaço para bagagem. Incorporaram duas amigas da área de medicina: a Maria e a Glória.

Como, só mulheres andando por aí era (e ainda é) complicado, o Gaspar, engenheiro recém-formado, trabalhando na COMASP, foi contemplado com o convite para ir com elas e aceitou o “sacrifício” de ser o homem do grupo. Seis jovens solteiros, na flor da idade, sendo 5 mulheres.

Saindo de São Paulo, para chegar a Asunción em carro, eram (e são) pelo menos dois pernoites e Foz do Iguaçú e Ciudad del Leste, no caminho, pedem uma parada de um dia inteiro cada. Logo, eram necessários 3 dias para ir e 3 dias para voltar. O grupo dos seis, por economia, pernoitava em quartos duplos, o Gaspar fazendo rodizio com as moças para não caracterizar “assédio” (nem preferência) e manter a liberdade.

Correu tudo bem, foram, voltaram e permaneceram todos(as) amigos(as). Anos depois, no congresso de Belém (1989), a Cecília uma linda nissei que infelizmente não está mais entre nós, seguramente a mais alegre e extrovertida dos seis, brincava dizendo que o Gaspar não cumpriu bem com as obrigações naquele rodízio, referindo-se a uma das colegas do grupo que saiu do armário e, ao que consta, até hoje, com homem, só dormiu no mesmo quarto com o Gaspar. Mas essas são outras estórias que não dá pra contar por escrito.

Aliás, falta um paper ou uma tese de mestrado para explicar por que os congressos são tão, digamos, afrodisíacos.

O congresso teve lugar no então recém-inaugurado Hotel Guarany (HG), ainda hoje (2017) um magnífico prédio e hotel-cassino.

Logo no primeiro dia, circulou a notícia de que, próximo ao HG, havia uma casa de espetáculos com bons músicos (destaque para as harpas paraguaias) com o ponto alto sendo um imperdível “show” de strip-tease do qual participava uma grande cobra que se enroscava na stripper guarany.

O sucesso era tanto que havia que comprar ingresso antecipado. Colaborava para o sucesso da “casa” os atendimentos, digamos, não convencionais disponibilizados. Era um local amplo, todo em “lusco-fusco” com uns poucos degraus mais iluminados por onde se descia ao salão, boas instalações, ar condicionado (na época quase um luxo), o uísque “legítimo” (ninguém se queixou de dor de cabeça), ou seja, circulou que a relação custo-beneficio valia a ida. O Gaspar, embora tão requisitado, não resistiu à curiosidade e conseguiu uma entrada para o terceiro dia. Mas só para êle.

As cinco colegas se assanharam e também quiseram ir ver como era. A intuição do Gaspar fez com que ele se negasse a acompanha-las naquele “antro” que ainda nem conhecia.

Formou-se um grupo de quatro solteiros, só da COMASP (Gabriel, Paulo, Domingos e Antonio). Ao entrar, apesar da pouca iluminação, perceberam que já conheciam, ao menos de vista, mais da metade dos ali presentes. Nos congressos, além dos solteiros e dos casados acompanhados, sempre há muitos casados(as) desacompanhados(as).

O recinto estava lotado. Cada mesa para quatro tinha 6 pessoas, invariavelmente uma ou mais senhoritas se insinuando. Na verdade, de cada 10 homens que vão a esses lugares 8 não fazem nada pelos mais diversos motivos (alguns por fidelidade, outros por medo de doenças, pelo custo, enfim...). Mas 120% afirmam que fizeram loucuras. Em todos os congressos (outros textos virão) circulam histórias mirabolantes, umas verdadeiras outras nem tanto, mas muito interessantes.

Enfim, estavam lá, na maior animação, aguardando o grande show, enquanto umas go-go girls se despiam dançando em torno de tubos verticais com os quais se agarravam em magistrais demonstrações de que, os tubos, não servem só para distribuir água, como ensinam na cadeira de hidráulica. Nada como um congresso para conhecer os materiais, os equipamentos e o manuseio dos mesmos!

De repente, assomaram nos degraus da entrada as cinco colegas e um rapaz. O Gaspar sobressaltou-se, achou que iriam para sua mesa. Mas sentaram em outra mesa, com o homem que as acompanhava, e por lá ficaram.

O show foi anunciado para breve, e o Gaspar resolveu ir ao banheiro preventivamente. Quando entrou, o recinto, embora grande, estava congestionado com muitos brasileiros ali “refugiados” e um aborrecimento geral o pessoal querendo dar porrada no Gaspar:”

_ seu FDP, trazendo a gurias aqui pô! Elas conhecem nossas mulheres”.

Assunto esclarecido, o Gaspar safou-se dos colegas . Mas isso não resolvia o impasse com a turma refugiada no banheiro e êle teve que ir lá resolver o problema.

Na verdade as gurias estavam acompanhadas do mais tarde famoso engenheiro Manuel Botelho, (autor do livro “Concreto Armado Eu Te Amo”, entre outros). Após algumas confabulações (a segurança do local teve de intermediar e ajudar na argumentação), Botelho e acompanhantes se comprometeram em sair antes de reacenderem as luzes (e cumpriram).

O show foi ótimo, atendendo a expectativa de todos e todas.

Ficou na memória do Gaspar a trilha sonora, com a harpa paraguaia, a noite no hotel ainda fazendo rodízio com as colegas, todos solteiros, todos com os hormônios à flor da pele.


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 2017jul R2025dezRm,  5.968 toques
 
 
 

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