DEMAGOGIAS TECNICAS (filosofando sobre o saneamento)
- Miguel Fernández

- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Há 3 mil anos, quase sempre a defesa de um interesse é viabilizada, em termos políticos, induzindo a sociedade a acreditar que se trata de interesse da coletividade, por motivos econômicos, de soberania, sociais, de bem-estar, dos menos favorecidos, das minorias, etc., ideia essa materializada em uma "solução", "programa", "diretriz", "pacote", "norma", “incentivos”, “subsídios”, ou lá o que seja.
Para isso, lança-se mão de argumentos, emoldurados pelo manuseio hábil da palavra e com recursos à semântica tecno-social, que traduz em anseios justos qualquer pseudo-benefício, inerente a qualquer empreitada.
Assim, por exemplo, a especulação imobiliária justifica alterações de gabarito ou de taxa de ocupação do solo, em nome do "direito" que toda a população tem de querer morar num mesmo lugar aprazível. Convenientemente, esquece de dizer que esse anseio, estimulado pela própria propaganda dos detentores dos terrenos, nem sempre existem, ou se existem, podem deixar de existir à medida em que o plano se concretize e o lugar deixe de ser aprazível (vide Copacabana, Guarujá ou Balneário Camboriú).
Ressalve-se que muitos gostam de Copacabana, do Guarujá e de Balneário Camboriu, como são e há que respeita-los. Ninguém é obrigado a ir lá, vai quem quiser.
E a argumentação "social" que justifica empréstimos oficiais a empresas em má situação, ou mesmo falidas, para "garantir empregos"? Acaso a produção ou o serviço dessa empresa não seria suprido por outra, que teria de empregar gente para atender essa fatia do mercado? Possivelmente outra gente, mas do ponto de vista da sociedade o número seria o mesmo. Mas é assim que se garantem as polpudas subvenções das quais nunca se prestam contas e das quais o povo não é beneficiário, é apenas pretexto.
Preocupa também, a tendência, cada vez maior, em propor e justificar soluções e empreitadas altamente questionáveis do ponto de vista ético, e mesmo do ponto de vista técnico, em nome das classes menos favorecidas, alegando que os recursos disponíveis são insuficientes para atender as reais necessidades de determinado setor.
Exemplo maior da questão foi a adoção do terceiro turno nas escolas de primeiro grau no ensino público carioca e fluminense, há alguns anos: diante da constatação de que o número de prédios escolares era insuficiente para atender à demanda de vagas para esses cursos, e "em nome de possibilitar educação para todos", partiu-se para a brilhante solução de diminuir os períodos de ensino, colocando-se três turnos onde existiam dois.
A solução, em princípio parece justa, pois evita que alguns fiquem sem escola, enquanto outros tem uma boa escola. Ocorre que, como em quase todos os sofismas, a questão não era essa. Cabia, sim, maiores verbas para a educação. A consequência, premeditada ou não, foi uma flagrante queda de qualidade no ensino público de 1º grau, com a evasão da classe média para a rede privada de ensino (primeira beneficiária direta da medida) e a criação de fato do cidadão de 2a. classe: aquele que é educado da forma que foi possível, dentro dos "recursos disponíveis". Ora, nada mais injusto do que oferecer, às crianças, educações diferentes, pois daí surge toda uma institucionalização das desigualdades, e de forma cruel, gerando rancores latentes que em nada ajudam a organizar uma Nação.
Mas a situação já existia antes, dirão. Sim, mas a solução proposta, além de amortecer uma luta por interesses maiores (educação boa para todos), serviu para nivelar os 2/3 atendidos até então pela rede escolar estatal, ao 1/3 que passou a ser atendido, rebaixando o nível geral, apenas criando uma maior oferta de mão-de-obra para funções menores da era tecnológica, com a inclusão do grupo que, se analfabeto ficaria à margem do processo e, assim, passou a constituir uma reserva de mão de obra pouco qualificada, reguladora de salários pois, a qualquer reinvindicação dos empregados, demite-se e contrata-se outro no mercado ofertado.
Enquanto isso, aliviados da pressão por mais verbas para a educação, os gestores de nossa economia podem divertir-se em brincar nos mercados financeiros em operações negociados sob o manto do sigilo e de interesse realmente duvidoso para a sociedade brasileira.
Nos últimos tempos, surgiram discursos igualmente sofismáticos, até em relação à área de saneamento:
os sistemas unitários de esgotos em áreas menos favorecidas e
as tarifas demagógicas camufladas em estruturas tarifárias baseadas em argumentos falsos mas com o apelo do “distributivismo”.
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