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  • Miguel Fernández

DISCURSO DE FORMATURA DA ESCOLA DE ENGENHARIA DA U.F.R.J. – 1970

Atualizado: 21 de Out de 2020

01_ Senhores Professores, a vocês que nos transmitiram o que sabiam, que foram nossos segundos pais, desde o dia em que entramos para o jardim de infância e nos aturaram pela primeira vez, que nos ensinaram a ler, a escrever, a somar, a multiplicar, passando pela escola secundária, cuja professora ou professor de português vai nos perdoar os êrros que cometermos, ou o professor de física pelas leis que esquecermos durante nossa carreira, e até os que nos transmitiram sua experiência profissional e de quem agora somos colegas e concorrentes: somos gratos e reconhecidos.


02_ Aos nossos parentes e amigos com quem convivemos todos estes anos e sempre nos estimularam a vencer: a nossa amizade.


03_ Às nossas esposas, noivas e namoradas, que souberam aturar nossas “viradas” estudando para provas, sempre nos ajudando e incentivando: o nosso amor,


04_ Aos nossos pais, que nos deram a vida e a vontade de vencer, tornando possível que tudo isso se realizasse, muitas vezes com o sacrifício de seu bem estar ou até de sua saúde, diríamos apenas, que: somos seus filhos e teremos dito tudo.

pausa

05_ É a vocês, que aqui estão, que vamos contar o que foram cinco anos de escola de engenharia: de 1966 a 1970 e fazer um balanço disso.


06_ Durante cinco anos ganhamos, perdemos, lutamos.


07_ Hoje, deveríamos estar prontos a participar no desenvolvimento do Brasil. Mas não sabemos se poderemos fazê-lo, embora a muitos pareça que sim. No máximo, conseguiremos fazê-lo continuar a marcar passo, acompanhando o seu crescimento populacional, mantendo a distância das outras nações, porque

NOS INFORMARAM, MAS NÃO NOS FORMARAM (pausa)

08_ Ensinaram-nos a integrar esta ou aquela equação, a calcular esta ou aquela laje, a especificar este ou aquele motor, a estudar em livros estrangeiros, a executar, até a improvisar, mas não a criar, não a inventar. Porquê?


09_ A maioria de nossas indústrias e firmas de engenharia são controladas por grupos estrangeiros. Argumenta-se que elas dão uma importante contribuição ao nosso progresso econômico, que levaria muito mais tempo para acelerar o processo de industrialização.


10_ O que nos aflige é a relação entre esses grupos, a profissão do engenheiro e do pesquisador, e até mesmo a nossa posição de NAÇÃO. A investigação pura e aplicada dessas organizações é realizada em seus países de origem.


11_ Em conseqüência, aqui, essas companhias não estão muito interessadas nos institutos locais de ensino e pesquisa, a não ser na medida em que através deles possam descobrir aqueles de mente mais privilegiada para levá-los às suas matrizes, de forma que tudo que é novo surja por lá e nós fiquemos sempre na dependência do pagamento de royalties, remessa de lucros, assistência técnica, etc., etc.


12_ Poderão ainda, interessar-se pelo nosso sistema educacional no sentido de obterem técnicos e engenheiros para operarem suas fábricas locais. Daí os temores de alguns quando se criaram os cursos de “engenharia operacional”, e quando se fala em transformar as escolas públicas em fundações.


13_ É importante que se preste atenção para essa faceta dos programas de trazer tecnologia e capitais estrangeiros em grande quantidade, pois mesmo os grupos nacionais, com as facilidades existentes, preferem comprar conhecimento e tecnologia importados. Prontos! Ao invés de investirem em equipes de engenheiros e pesquisadores, de modo a obterem maiores lucros, no menor tempo possível.


14_ Os engenheiros brasileiros se ressentem disso, e os colegas aqui presentes, sabem muito bem dos salários que nos são oferecidos para adaptar ou desenvolver projetos estrangeiros, estes sim muito bem pagos.


15_ Estarmos, a bem da verdade, diante de um novo tipo de DEPENDÊNCIA COLONIAL.


16_ Os argumentos de que as firmas estrangeiras já experimentaram, e que não se vai reinventar a roda, etc. etc., não procedem, pois seria a negação dos princípios de pesquisa científica, base da prosperidade dos povos ora mais desenvolvidos, que são a sede dessas firmas.


17_ À campanha de defesa da engenharia nacional, promovida pelo Clube de Engenharia, responderam os consórcios de firmas estrangeiras com nacionais, e outras formas legais de testas-de-ferro que por aí surgem às dezenas, permitidas pela legislação que apenas leva em conta o que entra, esquecendo do que sai e do que deixa de surgir aqui.


18_ Estamos sendo lançados em um jogo de cartas marcadas, inocentemente, muitos de nós pensando que tudo isso não existe, muitos de nós nem se importando se existe ou não, pois as palafitas da Nova Holanda não atingiram o Fundão nestes cinco anos, embora tenham avançado mar adentro 500 metros. (pausa)


19_ NOS INFORMARAM, MAS NÃO NOS FORMARAM (pausa).


20_ Somos de maneira geral acomodados, cada um querendo subir individualmente, sem uma consciência de classe, sem confiarmos uns nos outros, sem união. Alguns até com vergonha de terem dado mais certo que outros curiosamente querem ou acham mais fácil nivelar por baixo. Para falar claro, pouco nos conhecemos.


21_ Fomos orientados de forma a que não pudéssemos incomodar nem interferir nos desejos dos donos da verdade e da escola. Escola que nunca estimulou a amizade ou a camaradagem, nem entre alunos, nem entre professores, nem entre alunos e professores. A maioria nem sabe quem foram os diretores da escola, embora seu diploma vá assinado por eles. Assim é mais fácil dirigir urna escola: com todos divididos.


22_ Quando nos unimos para solicitar a mudança de um professor por um melhor, ou a adoção de um livro texto, por causa da obsolescência das apostilas, muitas delas da década de 1930, fomos combatidos com mão de ferro, e até de moleques tivemos oportunidade de ser chamados. A formação de alguns grupos dentro das turmas surgia mais como necessidade de sobrevivência do que por coleguismo. O que pressentimos é que vamos para o mercado um querendo derrubar o outro, e negar isso, seria hipocrisia.


23_ Enfim, fomos formados sem formação, e quem mais vai sofrer, será mais uma vez, o Brasil, já que dispersos e sem união, estaremos facilmente à mercê de qualquer um.


24_ Nossa escola não é um caso à parte. Todas as outras, quer seus alunos e professores admitam, quer não, são talvez até piores, e a nossa, podemos afirmar com certeza, ainda é a que fornece melhor base técnica.


25_ Pode-se tentar justificar a diretriz adotada, alegando que havia certos grupos agindo em nosso meio, porém é justamente aí que estava a grande lição. As idéias e as ações desses elementos, deveriam ser combatidas por nós mesmos, que éramos os prejudicados, ou então nós não seríamos dignos de reclamar. Eram eles que iam despertar-nos deste acomodamento, deste medo, deste deixa-prá-lá…


26_ Não podemos dizer que tivemos uma formação escolar democrática, pois o que caracteriza a democracia não é a ausência de conflitos, mas sim a solução de conflitos dentro de valores racionais e humanos.


27_ A democracia é a ordem sem necessidade de autoridade, um regime que desagrada tanto aos extremistas de um lado quanto os de outro.


28_ Se cada um define democracia como lhe convém, e em seu nome são realizados todos os progressos e crimes possíveis, e se democracia não pode ser definida com clareza, pode pelo menos ter seus elementos essenciais identificados.


29_ Esses elementos são a representatividade do poder, a liberdade de expressão e de imprensa, a liberdade de criação artística e o respeito a leis mais ou menos permanentes, em que as pessoas passam se basear para agir.


30_ E o homem comum é tão sensível a essas verdades simples, que, se não sabe o que é democracia, sabe muito bem o que ela não é. Por isso acham graça, quando os jornais anunciam pomposas declarações do Kremlin, mencionando a palavra “democracia”.


31_ Por quê acham graça? Porque ninguém pode considerar democrata regimes que prendem sem defesa, que censuram até a produção científica, que condicionam a criação artística ao gosto duvidoso de meia dúzia de burocratas. É verdade que os soviéticos agiram dessa maneira em nome do progresso econômico e do desenvolvimento.


32_ Como não somos comunistas, preferimos a pobreza numa democracia à alardeada prosperidade debaixo da opressão, assim como a liberdade é preferível à escravidão. É preciso ser um democrata para compreender e aceitar isso.


33_ Mas, como dissemos, se não tivemos uma formação democrática, como poderemos ser seus defensores? Se não lhe conhecemos os pontos fracos, como poderemos ajudá-la a sobreviver? Algo está errado.


33_ Parodiando a Agência Nacional, diríamos que “a segurança depende da confiança que cada um tem nos outros e EM SI”. Talvez falte um pouco de confiança dos que se dizem democratas, na democracia, ou então, não o são.


34_ E há muitos que realmente não são, que se aproveitam de qualquer fato ou ação de minorias desesperadas para provar por A + B que é necessário endurecer o regime.


35_ Mas o Estado não pode comportar-se como aqueles que pretende destruir ou controlar em nome da democracia. A causa terrorista está condenada, porque não encontra nenhuma receptividade no povo. Não há razão alguma que justifique a repressão indiscriminada a gregos e troianos, nem mesmo a brutalidade dos atos terroristas.


36_ Não há de ser a loucura e o desespero de um bando de fanáticos, à margem da razão, o pretexto para afastar o Brasil do caminho da democracia, e alienar ainda mais o povo do processo de escolha e formação do seu destino.


37_ O Brasil precisa restaurar a confiança em suas instituições e em si mesmo. Pertencemos a um mesmo povo, os de baixo e os de cima, governados e governantes.


37_ Autoridades que eventualmente se encontram no comando, sempre cometeram, cometem e cometerão erros. OK! Mas parece que mudam os personagens, invertem-se as posições e tudo continua igual! Falava-se muito em combater a corrupção e a subversão. Hoje, só se fala em subversão.


38_ Será que ninguém mais é corrupto? Quantos bens foram confiscados? Será que àqueles que são os mais dispostos a corrigir desvios, são-lhes apresentados tantos subversivos, que ficam sem tempo para cuidar dos corruptos? Corruptos que, salvo alguns poucos enganos, são os mesmos de todos os governos. Cadê as mudanças no judiciário?


39_ Quando se derem conta, os corruptores já terão corrompido tudo ao seu redor, e eles ficarão com os seus subversivos, vendo a inutilidade do trabalho que tiveram.


40_ Porque dizer isso? Porque achamos que a única forma de progresso de uma nação, é a união, a participação coletiva em todos os atos, e porque sentimos falta de uma instrução nesse sentido.


41_ Alguém disse algo como “só quem, pela educação e pela escola, aprende a conhecer o seu país, pode adquirir aquele orgulho íntimo de pertencer ao seu povo, de lutar pela sua pátria, pois só se pode lutar pelo que se ama, só se pode amar o que se respeita e respeitar o que se conhece”. Faz sentido.


42_ Talvez até pela consciência de que falta esse conhecimento do Brasil no que ele tem de bom e de ruim, é que alguns tentam impingir-nos uma “brasilidade” semelhante a uma torcida de time de futebol, com frases feitas, e uma tentativa de uniformização de mentes, nos termos do “ame-o ou deixe-o”.


43_ Como é que vamos admitir que a condição de brasileiro, ou o amor à pátria fiquem na dependência de uma concordância de idéias, ou de uma conformidade de pontos-de-vista? O privilégio de todos os brasileiros é exatamente o de amar o seu país, acima e além das divergências de opinião.


44_ Esses pretensos patriotas, na verdade são torcedores do Brasil, do tipo que marca palpite triplo ou até contra, quando seu time não vai bem, e de torcedor a brasileiro, vai uma grande distância.


45_ Tão grande que nem percebem.


46_ São esses alguns dos problemas que surgem à nossa volta, porque não são integrados representantes de todas as classes, categorias, e interesses no processo decisório de nossos destinos, mas apenas alguns grupos mais organizados.


47_ Talvez até porque outros, como o nossa de engenheiros, não foram preparados para isso. Não sabemos se deliberadamente ou não,

NOS INFORMARAM MAS NÃO NOS FORMARAM (pausa).


48_ Alguém perguntará: “onde está a solução?” – Vocês não a apontam?


49_ Pergunta cômoda, pois é a usada contra qualquer tipo de crítica, pelos que se sentem responsáveis ou coniventes.


50_ Podemos dizer apenas que não tivemos formação suficiente para responder, e que nem os de outras gerações que pretendem saber tudo, tiveram essa formação; só que custam a reconhecê-lo.


51_ Entretanto, podemos dizer que, se não sabemos exatamente a que fazer, sabemos muito bem o que não fazer.


52_ Diríamos também que temos fé.


53_ Que temos fé em que mais cedo ou mais tarde os professores terão salários condignos, que lhes permita uma dedicação real à escola. Que temos fé em que os pagamentos não atrasem, às vezes até dez meses. Que temos fé em que os honorários proporcionais ao tempo dedicado à escola deixem de ser promessas demagógicas e passem a ser uma realidade que permita seja formado um quadro de professores, pois hoje, o que temos são alguns idealistas que sacrificam o seu tempo de trabalho, para nos transmitir conhecimentos e que não precisam da escola para nada, pois já tem renome suficiente para que a escola se interesse em dizer que eles lecionam aqui,


54_ Temos também uma maioria do tipo que se interessa apenas por dizer que leciona na “escola de engenharia”.


55_ É preciso que o magistério superior atraia também os competentes que não podem dar-se ao luxo de se dedicar a algo que não os paga, por uma razão ou por outra, e normalmente razões de ordem econômica.

56_ E, quando se cria uma mentalidade livre de desejos e vaidades pessoais, com estruturas administrativas independentes e autônomas, sem vitaliciedade de cargos, admissão de professores por concurso e não por pistolão ou simpatias pessoais, enfim, uma mentalidade realmente honesta e voltada para o ensino, é que a escola superior poderá dizer que está formada, e então ela poderá, realmente, formar.


57_ Nesse dia, aceleraremos nosso passo, e teremos condições de tentar alcançar melhor lugar entre as nações. Mas será preciso sermos muito honestos, e muito brasileiros para conseguirmos fazê-lo, pois inegavelmente, vivemos em um mundo de interesses mesquinhos, e muitos deles serão contrariados. E as coisas andam tão confusas que às vezes confundimos os nossos interesses com os que não são nossos, pressionados por uma propaganda que não é nossa.


58_ Falou-se muito da conveniência ou não de um discurso político, de uma tomada de posição: – Que não haveria condições, que não seria conveniente, que não seria permitido, que seria temerário.


59_ Argumento mesquinho ou covarde, dos que desconfiam de tudo que não seja do seu grupo, ou seja conhecido, seguro, imutável. Não fugimos ao dever de defender nossa opinião, e chamar atenção para aquilo que julgamos certo ou errado, porque, apesar de tudo temos fé em nós mesmos.


60_ Perseveramos, prevalecemos, e estamos aqui.


61_ Muito obrigado pela atenção.

Miguel Fernández y Fernández, orador

Lido em 27dez1970, às 16hs, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro

(e foi o autor do texto, escrito em uma noite de nov1970)


Esta turma, foi a primeira turma integralmente formada na ilha do fundão, iniciou em mar1966 com exatos 400 alunos egressos do vestibular, distribuídos em 4 turmas de 100 alunos, duas pela manhã e duas pela tarde. A partir do 3º ano dividiu-se em Civil, Eletricidade, Eletrônica, Mecânica e Naval. A solenidade de formatura não era obrigatória e participaram cerca de 280 colegas dos cerca de 375 formandos.

Nota escrita em 2010 para o “site” da turma EEUFRJ1970:

Por causa deste texto, afixado no quadro de avisos uns 30 dias antes da formatura para os colegas comentassem (praticamente não houve comentários), fui “convidado” a “comparecer” ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) durante três dias, onde tentaram demover-me de ler este discurso, sugerindo que se fizesse outro texto, protocolar.

A situação era tão tensa que esse texto foi considerado “subversivo”!

Terminaram por deixar lê-lo sem modificações, com a informação entre dentes: não vai sair em nenhum órgão da imprensa. E não saiu mesmo, nem uma notinha.

Naquele ano também fomos a única turma, talvez no Brasil, a ter formatura “fora de prédio da escola”. Quando se deram conta estávamos com reserva no Teatro Municipal, já divulgada e aprovada pela direção da escola, o que ajudou.

Se não me falha a memória, chamava-se Delegado Gastão Fernandez (originário de Pernambuco) o chefão do DOPS-Rio nessa época e perdeu uma manhã comigo por conta deste “importante” discurso, enquanto a toda hora era interrompido porque o embaixador Americano (ou seria o Suíço?) estava raptado pelas “esquerdas”.

Como eu era “Lacerdista” (talvez ainda seja) e o Carlos Lacerda havia sido cassado fazia pouco, com divisões na área ideológica do governo, ficava difícil me classificar como “subversivo comunista”, o que me fez achar que esse Gastão era Lacerdista pois chegamos a ter um diálogo meio acri-doce sobre as diferenças entre militares e comunistas (se é que há) e quem eram os democratas.

Re2020

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