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Malandros e Babacas

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 21 de jan.
  • 3 min de leitura

_ “Se os malandros soubessem das vantagens de ser honestos, seriam honestos por malandragem”

A primeira vez que ouvi esse aforismo foi da boca do engenheiro A.J da Costa Nunes, creio que em 1986 ou 87. Pareceu-me extensiva a muita gente que se acha “esperta”, e à gente má. Afinal, os presídios estão cheios deles e nós aqui fora curtindo o mundo livre, livres leves e soltos. Com as exceções que confirmam a regra.

Com o tempo, hoje acho que há exceções demais: no mercado financeiro, na gestão da coisa pública, no sistema judiciário, todos livres leves e soltos.

E que, assim como há muitos honestos não bobos, também há muitos eternos infantis, muitos inocentes, que acreditam em qualquer coisa “bonitinha” que se lhes diga ou leiam e que são o principal objeto dos “contos-do-vigário”, certamente de onde vem o nome “vigarista”.  Meu pai já me avisava de pequeno:

_ vigarista não tem cara de vigarista nem conversa de vigarista, se não, não é vigarista.

Em verdade, desde que começamos a ir ao colégio, começamos a conviver com a diversidade dos mais éticos, dos menos éticos, dos mais inocentes e dos menos inocentes. Mas são duas coisas distintas: ética e inocência.

As primeiras experiências que lembramos devem ser aquelas que tivemos a partir dos 5 a 6 anos, eram os inoportunos, os agressivos, os assediadores, os “malandros”, hoje resumidos no estrangeirismo “buling”. Se formos aos dicionários antigos, “bully” era o brigão, o valentão o fanfarrão, o tirano, o rufião, o assediador, o exibicionista ou, como verbo (to bully), intimidar, oprimir, assediar.

Na minha escola primária tinha um que aterrorizava todos na escola, mas não porque tivesse desvios ou fosse mau caráter, e sim porque era tido como bom de briga, era pavio curto e havia repetido um ou dois anos. Era conhecido por “primo” e certamente uns 4 anos mais velho que eu. Era muito importante que todos soubessem que você era “amigo do primo” para ser respeitado.

Depois, no ginasial, já em outro colégio, na praia de Botafogo, havia umas figuras lamentáveis que assediavam colegas porque eram gordos, ou bobos, simplesmente para humilhar, até com conotações sexuais, como se o homo fosse só o passivo. Se achavam os malandros. Tinha um chamado Freijó que deve ter acabado num subterrâneo da vida.

Não sou psicólogo nem antropólogo, nem do ramo, mas vivendo e conversando, notei que esses problemas acontecem dos 6 aos 16 anos. Depois, as personalidades estão mais formadas, os assediadores não encontram mais espaço fácil, precisam disfarçar melhor seus propósitos, passam a ser mais “artistas”. Na verdade a gente conhece bem as pessoas antes dos 16, quando dá para conhecer o caráter. Como o caráter não muda, vale para a vida. O problema é que, dali prá frente, os(as) “mau caráter” se camuflam.

Na minha época, ainda não tinha aparecido um Steve Jobs para lembrar ao pessoal:

_ malandragem, tratem bem seus CDFs (*01), pois eles serão os seus chefes

Foi por volta de 1995 que, chegando em casa, ao anoitecer, parei o carro, em frente a um bar, para comprar cigarros e encontrei um pessoal vizinho, tomando cerveja no balcão, que me instaram a ficar e pagar uma rodada. Estavam todos já meio “altos”. Como meus filhos conviviam com os filhos deles, nos conhecíamos e era uma boa oportunidade para trocar idéias e informações. Depois de uns 5 minutos, notei que em uma mesa havia dois que, vez por outra interagiam com meus amigos, um deles, com porte atlético mas, com muletasm pois só tinha uma perna. Só de olhar já pensei, acidente de moto. Alguém confirmou. Na cerveja seguinte ele se virou para o meu lado e pude ver seu rosto. Me pareceu familiar. De onde conheço esse cara?  O gravador da memória retrocedeu e falei com êle:

_ Cara, você não é o Primo da Escola 2-3?  Lembro bem de você.

E êle, com voz de quem havia bebido mais do que devia:

_ Sou eu sim. Naquela época eu era o fodão e vocês os babacas. Hoje eu sou o babaca e vocês os fodões.

Fiquei sem saber o que dizer. Também não sei se fiquei com pena, ou qual o sentimento, mas admirei a resposta pela lucidez.

Sempre soube que êle não era mau caráter.  Às vezes era um exibicionista no papel de menino mau, o que lhe convinha a conquistar as meninas, sempre atraídas pelos meninos maus. Às vezes, no papel de miliciano, bancava o árbitro justiceiro. Um rebelde sem causa? Pode ser.

Passados 30 anos (2025), achei que era assunto para registro.

 

(*01) – gíria para “aluno dedicado, estudioso” estrangeirismo: “nerd”

 

 


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 2025nov R2026janRa, 4.466 toques

 
 
 

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