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  • Miguel Fernández

Ele te trata bem? New York, 1971

Em meados de 1971, fui aos Estados Unidos pela primeira vez nesta minha vida, junto com mais 7 selecionados / convidados do USIS (United States Information Service) dentro de um programa sobre “Problemas das Grandes Cidades” ao qual vou me referir com “Bolsa” (acho que era assim que chamávamos).

Esse programa foi conduzido durante o ano de 1969 nas cidades onde havia consulados americanos, com uma série de especialistas falando sobre os mais diversos assuntos do interesse das cidades. Se não me falha a memória, o coordenador chamava-se John Reed (do USIS).

Os selecionados éramos todos recém formados: dois arquitetos gaúchos e um brasiliense, um sociólogo paranaense, um engenheiro paulista e outro maranhense. Que me desculpem os demais mas só lembro dos nomes do paranaense (Orlando Pilati) e do maranhense (Joaquim Guimarães Ramos). Fiquei muito orgulhoso em ter sido um dos 9 selecionados entre cerca de mil candidatos.

Foram uns 45 dias visitando Miami(FL), Washington DC (e Reston na Virginia, um marco), Pensilvania, New York (NY), Hartford (Connecticut), Boston, Detroit, San Francisco, Los Angeles. Em cada um desses lugares tivemos visitas de campo e palestras com arquitetos, engenheiros, advogados, policiais, assistentes sociais, urbanistas das prefeituras, das universidades e de firmas especializadas, representantes comunitários, políticos, jornalistas. Muito interessante! Ao final nos deixaram de volta em New York com uma passagem de volta ao Brasil para usarmos quando quiséssemos.

Naquela época era muito mais raro viajar do que atualmente, as comunicações por carta e telefone via telefonista são inimagináveis hoje em dia. Além disso era tudo muito difícil e muito caro. Uma oportunidade dessas tinha que ser aproveitada ao máximo.

O fato de ter sabido da “bolsa” com grande antecedência (era para ter sido um ano antes quando estaríamos no último ano de nossas escolas, mas foi adiada) permitiu que eu planejasse bem a viagem.

Assim me organizei para ficar mais uns 4 meses em New York.

Eu tinha duas primas de 1º grau (espanholas, irmãs: Alejandrina e Lidia) morando nos arredores de New York (Long Island, Northport e Brooklin) casadas e com filhos entre pequenos e adolescentes, e a quem eu nunca tinha visto, além disso era a época dos Hippies, Woodstok acabara de acontecer, eu queria era ficar mesmo em Manhattan, o centro do mundo, se possível no epicentro: o Grenwich Village.

Mas como, sem dinheiro?

O primeiro passo foi conversar com a empresa em que eu estava empregado, trabalhando em São Paulo como engenheiro recém-formado, empresa americana com sede em Passadena, California (Engineering-Science, dos irmãos Ludwig), que também tinha escritórios em New York e em Washington e pedir um estágio no escritório de New York (o que foi concedido mas sem remuneração, embora depois tivesse umas ajudas de custo pois acho que consegui produzir e agradei ao pessoal do escritório de NY).

O segundo passo foi buscar onde ficar.

Eu tinha ouvido dizer que o filho de um casal de conhecidos de meus pais (pessoal muito humilde) conseguira emprego em uma estatal brasileira (Lloyd) com escritório em New York e fôra morar lá. Eu não conhecia bem nem os pais muito menos o filho, o Arnaldo (nome fictício pois não sei onde ele anda nem se autoriza). Na “cara de pau” fui falar com os pais dele que apoiaram e escrevi cartas ao Arnaldo, que respondeu também receptivamente. Me informou que morava em um apartamento confortável e grande o suficiente para eu ter o meu quarto. Ficou acertado que eu dividiria as despesas do apartamento com ele enquanto estivesse por lá e que telefonaria quando passasse por New York pois a programação era intensa e eu não dominava a língua o que me deixava temeroso de circular com eficiência. Quando terminasse a “bolsa” então eu apareceria. Eu avisaria por carta ou por telefone o dia e hora. Tudo OK, vida-que-segue.

Concluído o giro da “Bolsa”, que durou uns 45 dias, estava eu de volta a New York, dessa vez para ficar uns 3 a 4 meses, por minha conta e risco.

Cheguei e fui me apresentar no apartamento do Arnaldo de mala e cuia, conforme combinado.

Era um fim de tarde, inicio de noite. Toquei a campainha e veio o Arnaldo, muito simpático, nos apresentamos e, em seguida, me apresentou um grupo de amigos dele ali reunidos comemorando o aniversário de um deles.

Nessa altura eu ainda não tinha visto (nem sei se já havia) uma peça de teatro que também virou filme, no Brasil chamada “Os Rapazes da Banda”.

Se foi escrita depois, foi inspirada nessa minha chegada no apartamento da Rua 14, no GreenwichVillage. Ali estavam 4 ou 5 casais hoje ditos homoafetivos, e eu hetero. Eles tentando disfarçar o indisfarçável e com isso a situação foi ficando cômica.

Instalado em um confortável quarto, fechei a porta e fiquei a sós pensando na situação e no que fazer, como me comportar, etc. ... Eu tinha alguma experiência em conviver com esse tipo de diversidade numa boa, sem nenhum problema de parte-a-parte: durante dois anos (1967-1968) no Banco Central do Brasil, tive um “chefe” o Paul, e antes disso, desde 1965 no Clube de Regatas Guanabara, começara a velejar com um engenheiro alemão-bahiano (não são só os arquitetos!) igualmente homo, o Gerths. De ambos, eu e minha namorada naquela época, a Enian, nos tornamos amigos.

Voltando ao Arnaldo e seus amigos, me lembro muito do Philip, um bibliotecário negro, alto, bem apessoado e que exercia a liderança do grupo e de outros grupos que fui conhecendo com êle. O Philip conhecia como ninguém as pessoas e a noite de Manhattan, além de ter me apresentado às suas incontáveis lindas e simpáticas amigas. Êle tinha um cachorro branco da raça poodle e fazia questão de andar pela rua, vestido à sua moda, extravagante e elegante, levando o poodle por uma longa corrente prateada que ele “escandalosamente” segurava com o dedo fura-bolo apontando para o céu e a corrente fazendo uma catenária raspando chão.

Frequentemente à noite eu ia junto porque era garantia de bom programa, fosse pela musica dos lugares que ele desencavava, fosse pelas amigas, pelos pratos que cozinheiros amigos faziam questão de oferecer ao “líder”. Ao mesmo tempo vivia aflito que algum conhecido daqui me visse em companhia tão, digamos, singular... preconceitos meus que tive que administrar. Saudades daquele tempo.

O Arnaldo tinha um companheiro portorriquenho que, creio, após tantos anos, se chamava Jorge. Todos ganhavam bem, mas gastavam muito “por luzir-se”, ou seja, por aparentar, e por isso viviam apertados. Eu era recém formado e em licença sem vencimentos, então tínhamos problemas semelhantes, e nos entendíamos. E nos ajudávamos. O Arnaldo não dividia a conta do apartamento comigo no fim do mês conforme o combinado, o que me obrigava a fazer compras tentando compensar o benefício, mas era impossível.

Naquela época, brasileiro ia aos EUA e voltava com três ou quatro calças blue-jeans (Lee ou Lewis), se possível uma jaqueta de couro tipo James Dean, máquina fotográfica, aparelho de som... Eu não era exceção, mas tinha que optar e até por falta de recursos, fiquei com as calças e queria muito um casaco em “antílope” mas era muito caro.

Na hora de voltar, tirei a última semana para despedidas e compras. O Arnaldo tirou um dia para me levar em umas lojas que ele conhecia (creio que seria no Soho) e que hoje equivaleriam ao que se convencionou chamar de “outlets”. Especificamente chegamos a uma loja de roupa masculina chique para a região e só com coisas de primeira qualidade, mas a um preço realmente convidativo.

Façamos uma pausa para explicar que o principal objetivo de ficar mais tempo nos EUA era aprimorar meu inglês. Aprimorar nem seria bem a palavra, melhor seria aprender inglês. Afinal, durante muitos anos eu fazia cursos e mais cursos e nada de me sentir minimamente confortável para enfrentar um diálogo em inglês. Mas após 3 a 4 meses por lá, meu ouvido já pegava muita coisa antes impensável e eu me comunicava. Mal mas me comunicava. Por isso pude entender o que conto a seguir, hoje rindo, mas na época constrangidamente puto-da-vida:

Enquanto eu vasculhava as centenas de cabides com casacos de couro, notei que o Arnaldo admirava um sobretudo de gabardine bege, estilo inglês, elegantérrimo. De longe imaginei o preço. Eu continuava buscando um que me agradasse e ao mesmo tempo tivesse uma boa relação custo x benefício.

O Arnaldo vestiu “o sobretudo”, desligou-se do mundo e começou a desfilar na frente dos espelhos da loja. Quando digo desfilar, foi d-e-s-f-i-l-a-r. A loja parou pra assistir o Arnaldo em transe olhando-se nos espelhos e pra-lá-e-pra-cá, numa passarela imaginária. Ao ponto que o gerente não resistiu e maldosamente interrompeu o Arnaldo para dizer de chacota que se ele ficasse a semana toda fazendo aquele desfile na loja ganharia o sobretudo. Isso tirou o Arnaldo do “transe” e encerrou o “desfile”.

Nessa altura eu já escolhera o meu casaco de couro e, no balcão, discretamente mandei embrulhar também o sobretudo para fazer uma surpresa ao Arnaldo e tentar compensar as despesas do apartamento não divididas naquele período.

Não havia me dado bem conta do que estava fazendo até que o caixa-balconista, um elegante negro discretamente me perguntou: “ele te trata bem?”.

Paralisei! Me lembro bem da situação pois embora não fosse inusitada, na hora gaguejei muito até conseguir dizer algo do tipo “não se mete” o que era francamente inapropriado e me deixou mais gago ainda.

Enfim, entrou no rol das coisas inesquecíveis que acontecem com a gente.

Adoraria encontrar todos eles outra vez. E agradecer a hospitalidade, o respeito, a camaradagem, os momentos vividos.

(mfyf, escrito entre 2016mar23 e 2016mai02) Rb

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