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  • Foto do escritorMiguel Fernández

Fotografando almas

Atualizado: 3 de mai. de 2023

Em certos lugares do mundo, e em certas situações é melhor tirar fotos disfarçadamente. E haja motivos.


Há gente que, alegando motivos religiosos, praticamente agride o turista-fotógrafo dizendo ter saído na foto, mesmo que lá no fundo, na paisagem, com o argumento de que sua “alma” foi subtraída pela foto, que não autorizou, enfim, querem ir para a polícia, armam um escândalo em busca de uma “compensação” financeira. Acho até que um “assalto” seria mais honesto.


Foi o que aconteceu em Trípoli, capital da Líbia, em dez2007. Como já registrado em outra crônica, estávamos a trabalho, apoiando uma empreiteira brasileira. Terminado o serviço e as reuniões de trabalho, ficamos com dois ou três dias livres antes de iniciarmos a volta ao Brasil, desta vez, via Lisboa. O eng. Teles, o eng Bezerra e eu, contratamos um taxi por dois dias para conhecer Trípoli e os arredores.


Como qualquer outro lugar do mundo, tem gente boa e gente má. Falando francês dá para “se virar”. Adoramos conhecer e fomos muito bem tratados. Naquela época, quase todos se diziam islâmicos, os costumes e as exteriorizações do dia-a-dia seguindo os preceitos de Maomé e, mesmo quando não era bem assim, mas lhes convinha, diziam que faziam isso ou aquilo por motivos religiosos, me contou um líbio não muito ortodoxo.


No primeiro dia de folga, fomos às ruinas de “Leptis Magna”, um dos lugares mais interessantes que conheci na vida e recomendo fortemente visitar, a quem tiver a oportunidade ou possa ir por lá. O local teve seu auge pelo século 1 e impressiona. Fica no litoral, na orla do mar Mediterrâneo, a pouco mais de 100km a leste de Trípoli.


À noite, já de volta ao hotel na capital, soube por e-mail (primórdios da internet) do nascimento de meu neto Joaquim. Daí que, no dia seguinte (16dez2007) quis ir visitar um templo católico, que havia visto, para rezar pelo neto. Entrei no templo, passando por uma revista visual e tipo aeroporto. Era uma construção grande, que chamava atenção, creio que era consagrado a São Francisco e me disseram ser o único católico na cidade. O fato é que, ao entrar, havia umas cem pessoas espalhada pelo local, uns rezando, outros conversando e à medida em que iam me vendo foi-se criando um silêncio geral, todos me olhavam mudos entre curiosos e com receio.


Me senti meio que obrigado a ir me apresentar a um sacerdote que também parecia ser a pessoa mais importante presente, e que me olhava como que orientando a isso, o que fiz em voz baixa, explicando porque estava ali e pedindo a sua autorização. Então, recebi um cumprimento gentil, através de um meneio de cabeça e de mãos, me abençoando, que todos perceberam e o ambiente retomou a normalidade.


Depois de fazer minhas orações, ao sair, já na rua, na companhia do Teles e do Bezerra, que ficaram esperando fora, tiramos umas fotos, em frente da igreja, quando surgiu um personagem querendo a máquina fotográfica do Teles, alegando que percebeu que saíra em uma das fotos, sua alma se fora, blá, blá, blá.... E ia aumentando o tom. Muito desagradável, você em um país diferente do seu, de cultura diferente da sua, sendo constrangido daquela forma. Isso depois de uns dez dias nesse país tirando fotos, sem restrições. Tinhamos sido avisados para não fotografar pessoas especificamente, o que respeitávamos.


Foi preciso o nosso motorista gritar com o “carinha” para ele se intimidar e desistir. Depois soubemos que era um “golpe” comum. Coisas que acontecem em qualquer lugar, varia o tipo. O Teles disse que provavelmente o motorista ficou preocupado em não receber, por isso intercedeu a nosso favor de forma veemente. Maledicência do Teles pois fomos muito bem tratados pelo tal motorista antes e depois do episódio e todos acabamos amigos.


No terceiro e último dia, nos animamos e fomos fazer um programa ateu: jantar em um bom restaurante árabe com show de dança do ventre. Aí quem não queria sair nas fotos eram o Teles e o Bezerra, ambos alegando que eram casados e as fotos podiam ser mal-interpretadas pelas almas das esposas, se viessem a vê-las, mesmo com a colega engª Siena de álibe, ou até por isso.


Cada um com seus problemas e com suas almas penadas.


Miguel Fernández y Fernández,

Engenheiro consultor, cronista e articulista, abr2023,

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