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Fumantes 01

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

1988jan, coast-to-coast


Era dez1987 e foi passar o fim de ano na casa do irmão em El Cerrito, ao lado de Berkeley, California, onde o irmão fazia um “pós-doc” em termodinâmica. O natal, passaram em Lake Taho. Lembra do seriado de filmes Bonanza? Era passado lá.  

No dia 23dez assistiu, com o irmão e as esposas, uma apresentação, ao vivo, do magistral Ray Charles. Com as mulheres, é força de expressão. A cunhada resolveu passar mal durante a apresentação do Ray Charles, alegando emoção e ar rarefeito da altitude, foi parar no ambulatório, nos subterrâneos do teatro do cassino, sem que ninguém se dispusesse a lhe fazer companhia, assunto até hoje motivo de chacota. Aliás a cunhada se esmerou em chamar atenção por lá, também foi parada pela polícia e levou uma multa por estar dirigindo abaixo do limite mínimo de velocidade permitido. Nunca tínhamos ouvido falar nessa possibilidade. Vivendo e aprendendo.

Pouco antes dessa época começaram as campanhas contra o fumo.

Nos cassinos podia, nos restaurantes dependia do Estado e do restaurante, nos aviões dependia da política das empresas, e por aí ia.

Foi então que soube que conseguiu uma reunião profissional para o dia 08jan1988 em New Jersey, do outro lado dos EUA e precisou marcar sua passagem para o dia 07jan. Esses voos costa a costa (pacífico-atlântico), no caso San Francisco – Newark, são longos, cerca de 7 horas. Pelo que lembra, voava pela AA (American Airlines) e escolheu um voo fumante, ou seja, em que se podia fumar a bordo.

Havia 4 sistemas nessa época de transição:

01_   o voo era todo fumante e fumava-se no avião inteiro, o tempo todo depois da decolagem chegar na altura de cruzeiro.

02_   o voo era meio-a-meio, os fumantes eram alocados na parte traseira do avião e a dianteira era para não fumantes,

03_   havia um fumódromo a bordo (opção que só se viu para a europa) aberto depois de terminado o serviço e ia tanta gente fumar nos locais permitidos que acabou dando problemas e desapareceu, mas os fumantes apreciavam muito pois parecia que todos os fumantes se conheciam fazia tempo.

04_ voo não fumante 

Recebeu a passagem com a reserva, indicado claramente: “voo fumante, assento junto ao corredor, na primeira fila de fumantes, do lado boreste da aeronave, tudo conforme solicitado e acordado.

Ao embarcar, na manhã de uma 2a feira, surpresa: um cartaz informando que o voo era “não fumante”.  Notou algumas reclamações de outros passageiros, todos americanos, mas entendeu que o voo seria do tipo meio-a-meio.

O avião levantou voo, chegou à altura e à velocidade de cruzeiro, os comissários iam começar a servir o lanche e nada de as luzes de não fumar serem apagadas.

Como estavam nos EUA, onde os direitos e deveres individuais são muito exigidos e respeitados, começaram muitas reclamações por parte dos fumantes, e o tom foi subindo. E nosso amigo ali, pensando com os seus botões, como turista, não iria se meter e desafiar a turma de lá, logo êle, que só fumava socialmente, desde os 16 anos, o maço durando 3 dias em média, não seria grande sacrifício ficar aquele voo sem fumar.

Lêdo engano seu, os companheiros fumantes o constrangeram a colocar um cigarro na boca, ainda sem acender.  Ato contínuo, levantou-se um “líder dos fumantes”, imediatamente seguido por um outro passageiro que se colocou como líder dos não fumantes, os dois cara-a-cara, no corredor, exatamente onde estava sentado.  Muito azar, até a saliva que saia das bocas exaltadas já o atingiam, quando o comandante do avião veio ver o que estava havendo e a situação complicou.

O comandante informando que as instruções que tinha diziam que o voo era não fumante.  E os fumantes mostrando as passagens dizendo o contrário, nosso amigo já preocupado com o motim.

_ Era só o que faltava, sair do Brasil e vir morrer aqui, em acidente aéreo, por um motivo desses.

A discussão recrudesceu e ia de mal a pior, quando o lider dos fumantes falou algo que todos riram e acendeu o cigarro na cara do comandante, seguido instantaneamente por todos os fumantes, exceto o brasileiro.

O comandante bateu em retirada para a cabine de comando e o líder dos não fumantes seguindo-o, foi sentar-se no seu lugar, de onde não deveria ter saído, com cara de humilhado.

O inglês do brasileiro não sabia, até ali, que “to fart” era “peidar”, mas não foi preciso ninguém lhe explicar, todos haviam sentido o cheiro horrível, certamente saído do líder dos não fumantes (o que êle teria comido?!), e o “líder dos fumantes” tinha falado para o comandante:

_   Se o senhor proibir de peidar nós não fumamos.

E acendeu o cigarro na cara dêle.

Por uns 15 a 20 segundos, o brasileiro não fumou, mas todos os fumantes, ainda rindo, queriam acender seu cigarro. Foi inevitável e menos perigoso acender logo o cigarro. Parece que nunca se fumou tanto em um avião. Muito menos com as luzes de não fumar acesas.

Chegando ao aeroporto de Newark, ao encostar na “ponte móvel” entrou a polícia, vieram pelo corredor até a linha divisória dos fumantes e dos não fumantes e falaram algo do tipo:

_ daqui para trás ninguém sai.

Pronto, pensou o brasileiro, vou perder a viagem. Mas não precisou abrir a boca, todos os fumantes, uns 40, ou mais, gente que nunca se tinham visto antes, veementemente intercedendo pelo brasileiro:

ele não queria fumar, é turista, nós que o obrigamos.

Aquilo foi comovente, nunca tinha tido um sentimento tão forte de pertencimento a um grupo. Pessoas que mal conhecia, que só tinham em comum consigo o fato de fumarem e, de repente se verem conjuntamente criminosos, de certa forma se arriscando para defender um turista estrangeiro. Uma aula de psicologia.

Entretanto, todos já haviam notado que os dois policiais tinham maços de cigarro nos bolsos e não falavam nem uma palavra mais. Esperaram a tripulação e os não fumantes saírem, contaram uns 5 a 10 minutos (que eternidade) e sem falar nada, fizeram um sinal de podem ir, em silêncio.

Quanto bom senso dos policiais. Lembrou de voltar e deixar um maço de “holliwood Souza-Cruz”, inteirinho, para os homens da lei, que não queriam aceitar, mas o seu sorriso devia estar tão radiante que seria uma sacanagem não aceitar o “brazilian cigarrette”. E assim foi.

Chegou no desembarque e ante o olhar incrédulo e decepcionado-frustrado dos não fumantes que ainda estavam na esteira das malas, pegou a sua malinha, e foi encontrar o engenheiro e colega Goldblatt, que o esperava na saída, conforme o combinado.


Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito 2020mai - 2025dez R2026janRb,  6.402 toques
 
 
 

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