Películas (Vira-Latas, parte n)
- Miguel Fernández

- há 3 dias
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Era por volta de 2008 e, por motivos profissionais, precisava comprar um carro novo, com tração nas 4 rodas, reduzida e, de preferência, motor diesel, por causa do torque em baixas rotações.
Após diversas análises, tipo engenheiro, com matriz de decisão, gerando os índices preço/potência e peso/potência, além dos testes de direção, a escolha recaiu sobre um modêlo “Sorento” da Coreana KIA. Com a agência na Rua da Passagem e oficina na rua Assunção, ambas em Botafogo, no Rio. A KIA também tinha uma boa rede de oficinas no Brasil todo, fruto da disseminação de um utilitário chamado “KiaBesta” que, com um motorzinho diesel, simples e bom preço, substituiu as KOMBI da VW no mercado.
No dia da chegada do carro, foi avisado que, como cortesia, ganharia um jogo de tapetes e a colocação de película escurecedora nos vidros, mania nacional desde aquela época. O carro precisaria de uma revisão final e só seria entregue em 48 horas. Resolveu ir à oficina ver o novo “filho” e tentar trocar a tal película por outra coisa. Sua
opinião sobre as películas era que atrapalhavam a segurança ao dirigir de noite, especialmente em dias de chuva pois prejudicavam a visibilidade.
A maioria das pessoas gostava das películas porque achavam “chique”, elegante, ver sem ser visto, e davam a desculpa da “segurança”: o ladrão não vendo quem estava dentro iria assaltar outro carro. Bobagem pois nessa linha de justificativas, quem se esconde mais, seria porque tem mais o que ser roubado, e vai atrair mais ladrões.
Mas a revenda da KIA foi categórica: os brindes eram aqueles, tapete e película, pegar ou largar.
Entretanto, podia escolher a película: havia com transparência 70%, 50% e 25%. Podia até misturar. Então, como “a-cavalo-dado-não-se-olham-os-dentes”, e cedendo a opiniões familiares, resolveu aceitar. Mas, como engenheiro, não resistiu a “engenheirar” as películas: 75% nem pensar, não se vê nada, vai dar a sensação de um “furgão” fechado. No vidro da frente melhor não colocar nada. No vidro traseiro resolveu usar a película mais clara (25%), para não atrapalhar muito a visibilidade do retrovisor interno. Nas laterais, optou pelas películas intermediárias (50%) mas lá
pelas tantas hesitou. Iam atrapalhar os retrovisores laterais, talvez fosse melhor usar 25% também nas laterais.
Conversa-pra-cá, conversa-pra-lá, avalia a película com o instalador, tem um lampejo:
_ vamos colocar a 50% nas laterais, mas vamos deixar um espacinho sem película para o motorista ver os retrovisores externos e, à noite, chovendo, ver o que precisa ver.
O rapaz instalador entra na pilha e sugere que o corte seja vertical para quando o vidro subir e baixar os “lábios” de borracha da vedação não descolarem a película.
Mas é precioso a autorização do chefe da oficina. Resposta: _Não pode.
Teimosamente, pede para falar com o chefe da oficina:
_ Não pode. Não vamos nos responsabilizar, bla bla bla... Onde o senhor já viu isso?
Por acaso, vinha entrando um dos sócios da concessionária, o “patrão”. O gerente da oficina o coloca a par da conversa e o tal do “patrão”, mesmo sem ter ouvido essa parte da conversa, repete a pergunta:
_ onde o senhor já viu isso?
O comprador, que já estava irritado, resolve mentir:
_ nos Estado Unidos. Lá fazem muito.
Foi como se o sol se abrisse.
_ Ah bom! Então vou autorizar mas é sua responsabilidade, se não der certo não reporemos.
E assim foi feito. Uns seis meses depois, quando voltou para a revisão dos 15.000km, o rapaz instalador veio falar com ele, todo orgulhoso:
_ já instalei mais dois iguais ao seu.
Após quase 20 anos e dois carros continua usando esse método. E, mês-sim-mês-não, alguém o para na rua para perguntar onde fez aquilo. Responde: qualquer um com um estilete pode fazer. Melhor um com prática.
Não fosse o argumento de que viu “lá fora”, não teria conseguido.
Bando de gente com complexo-de-vira-latas, tão bem diagnosticado pelo saudoso Nelson Rodrigues.

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