Inteligência ou Memória?
- Miguel Fernández

- há 3 dias
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Entendemos que inteligência é uma coisa e memória é outra. Olhando no dicionário (língua portuguesa, Aulete 2011), parece que estamos certos. Então, a tal da IA (Inteligência Artificial) é um engano semântico ou uma tradução desastrada. Melhor seria chamar de AI (Automatismo Inteligente) ou CI (Computação Inteligente). Isto posto, neste texto, adotaremos a sigla IA, para designar o ramo da cibernética que tenta emular o raciocínio humano.
Com a devida vênia dos doutores da psique, o que se entende por “raciocínio humano”, envolve algumas áreas, sobre as quais não parece haver consenso. Entretanto, parece pacífico que, em nossa linguagem, “inteligência” é uma coisa e “memória” é outra.
“Memória’, é o conhecer, o lembrar, o decorar, o repetir, o saber. Memória é o banco de dados, a biblioteca de consulta, o arquivo, a enciclopédia. Ajuda imprescindível na análise de alternativas, na previsão e comparação de resultados, quer por aproximações sucessivas quer por outros métodos matemáticos. Certamente para “epater les bourgeois”(*1), agora sob o guarda-chuva da ainda sofisticada palavra mágica “algorítmos”, ou seja, fórmulas polinômicas, sistemas de equações, métodos numéricos.
Como diz um colega há 57 anos no ramo: “quando a tecnologia avança com rapidez e o mercado não quer ficar para trás, a nomenclatura não segue o vernáculo e sim as vendas. A que vende mais é a que “pega”. Esse IA é um caso. Ouvi pela primeira vez em Stanford, em 1972. As pessoas acabam repetindo porque não entendem bem o que estão dizendo nem fazendo. Ou porque soa simpático para os que aprovam recursos “That is Money”. Mais de meio século depois, não há razão para o mercado mudar os termos sedimentados”. Mesmo que incorretos. Uma pena para quem quer entender e fazer. Comodo para quem se satisfaz em seguir os que entendem. E os que pagam.
“Inteligência” é a criatividade e a curiosidade que instiga as novidades. É decidir o que fazer, porque fazer, como fazer, quando fazer e quem vai fazer. É uma arte e uma habilidade.
Ainda há a “experiência”, tão desdenhada ultimamente, que evita a repetição de erros, as perdas de tempo, a enxergar perguntas que os inexperientes não enxergam. Convenções, contratos, leis, memoriais, caem no escaninho dos registros e das precauções para evitar malentendidos, que a experiência recomenda fazer.
“Experiência” talvez seja um ramo da memória com criatividade. Na engenharia, sempre se brincou com a diferença entre um “engenheiro velho” e um “velho engenheiro”. O engenheiro velho já se forma assim e, no fim da carreira é um “velho engenheiro velho”. Vale para qualquer profissão.
Confundir memória com inteligência não é inteligente. Os “decorebas” das escolas cria um pessoal, dito CDF, que raramente sobressai na vida real.
Quando o brasileiro Mequinho(1972?), ganhou um título de grande mestre de xadrez, a plebe conterrânea, na falta de motivos outros, ufanou-se. A câmara dos deputados, em Brasília, chegou a votar uma lei, para incluir aulas obrigatórias de xadrez nas escolas, no pressuposto de que ajudaria a desenvolver a inteligência (quem lembra disso?).
Muitos apoiaram ou calaram, até que uma pessoa lúcida, disse: “Sim, isso vai ajudar a desenvolver aquele tipo de raciocínio que leva as pessoas a jogar xadrez (foi o famoso e genial Millôr Fernandes, humorista, teatrólogo e jornalista). O Senado, diante do ridículo, exposto pela ironia, não aprovou a lei, e não se tocou mais no assunto.
Ainda bem. Hoje, os programas de computadores vencem todas as partidas de xadrez.
Responder perguntas que já foram feitas e achar respostas que estão por aí, porque alguém já soube responder é fácil. O que deveria interessar, são as novas perguntas que devem ser feitas. E analisar as respostas, criticamente. Ou seja, além do “conhecimento” (que um bom banco de dados resolve), para evoluirmos, precisamos experiência, inteligência e curiosidade, coisa inerente a poucos humanos.
A computação tornou as consultas aos bancos de dados mais rápida. Isso muda muita coisa. Mas isso não é inteligência. Se não entendermos o que estamos discutindo, não haverá solução.
Em muitos países a geração que está entrando no sistema de ensino, recebe aulas de professores que não estão entendendo bem o que devem fazer e que não sabem bem o que perguntar. Isso porque, nos últimos 50 anos, poucos professores tiveram contato com o mercado de trabalho. Se enclausuraram nos empregos de docentes e nos critérios de ascensão nas carreiras, implantados nas universidades.
Como a nova geração vai saber o que perguntar aos computadores se, os seus professores, acham que montar um software mais amigável e mais rápido, para acessar um banco de dados, é um fim em si mesmo? Se acham que a resposta é uma só. Que não vai mudar com o tempo, que não vai ser manuseada por disputas por poder ou por engano ou por mero vandalismo (hackers)! Esquecem que ter informação demais é quase o mesmo que não ter informação. Esquecem que as coisas são relativas, que ser “do bem” ou ser “do mal” pode variar de cultura para cultura, de época para época, de crença para crença, de “causa” para “causa”. Essa “percepção” está na inteligência.
A educação subdesenvolveu-se e está perdida em “esperneios”. Cria temas tais como “engenharia da complexidade”, sem se dar conta do vazio semântico aí embutido. Como saber formular a pergunta correta?
Alguém já disse que tudo é 5% de inspiração e 95% de transpiração. Estava e está certíssimo. A transpiração nunca foi problema, 90% da população está apta a fazer mas, de uns tempos para cá, a computação (ora chamada “IA”), facilitou muito e ocupou boa parte do lugar da transpiração. O que fazer com o excedente de pessoas não mais necessárias? Esse é um efeito colateral grave.
A resposta parece ser ocupá-las com lazer e serviços correlatos. Com arte, com esporte, com coisas lúdicas.
Saber decidir o que fazer, porque fazer, como fazer, quando fazer e quem vai fazer é uma arte e uma habilidade, é a Inteligência, onde reside a curiosidade e a criatividade, que instigam as novidades.
Até a ambição, que também é da natureza humana, mas era suprida primordialmente pela força, pela violência, pelo número, pela intuição, pelo instinto, passou a ser atendida, pela IA, com o diferencial das inovações, ou seja, pela inteligência. As brigas passaram a ser de drones, bio-quimicas, raios laser. Geniais e terríveis.
O que se vai conseguir com a evolução da computação, dos bancos de dados, vai estar (se é que já não está) ao alcance de todos, por preço muito baixo.
A inteligência, e a percepção das coisas, é inerente a uma elite humana. Essa elite sofrerá um rodízio pois a inteligência não parece ser hereditária. As estruturas, as culturas que melhor se adaptarem a esse rodízio, prevalecerão. A capacidade de lembrar, de saber, de decorar, ou o nome que se quiser dar, vai valer cada vez menos e será comum a todos. Mais a uns do que a outros. Afinal os bancos de dados se estão concentrando em poucas mãos.
Inteligência de fato, curiosidade e como fazer perguntas, poucos sabem e poucos saberão fazer. Vão dominar o mundo. Talvez tenha sido sempre assim, mas nunca foi tão claro.
(*1) - “epater les bourgeois” expressão idiomática francesa, mundialmente usada no século passado (“embasbacar os burgueses”).
Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito entre dez2025 e jan2026, R2026marRh , 7.273 toques
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