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Lauras

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 13 de set. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 6 de abr.

Alguém já advertiu que o melhor parceiro(a) é o(a) que conhecemos de relance, isso porque não tivemos tempo de reparar nos defeitos. Imagine então uma pessoa que você só conhece porque outros te contaram. Essa pessoa é perfeita, você nem a viu, nem vai ver, só pode idealiza-la. Logo, é a pessoa ideal.

Como as Lauras.

Laura não é um nome corriqueiro, tampouco é um nome incomum. Então, sempre que aparecia uma Laura, nos lembrávamos do assunto.

Tudo porque, em 1961, no terceiro ano ginasial do Colégio de Aplicação, 5 colegas trocamos de colégio e fomos parar na mesma sala de aula, na mesma turma, onde, entre outros 5 que haviam saído, havia uma Laura, que nunca chegamos a conhecer, mas que era tida como uma menina linda, encantadora, com todos os predicados, e por quem, pelo menos dois dos alunos remanescentes estariam apaixonados, o Milton e o Moacir. E olha que a turminha tinha muitas meninas show.

Paixões com 15 anos são um problema sério pois, normalmente, é comum o(a) outro(a) nem perceber, ou fingir não perceber. Neste caso então que a pessoa desaparece, vira personagem de ficção, o que fazer? Aprender a viver com as frustrações sem se frustrar, diriam os otimistas-realistas, não dados a se deprimir.

Então, a turma remanescente (como adolescentes são maus) ficava incitando, provocando os sentimentos do Milton e do Moacir, dizendo que ela tinha sido vista conversando com um rapaz, que a tinham encontrado numa festinha, que ela estava cada vez mais bonita, etc. e tal. que estava numa nova escola no Largo do Machado. E lá iam, em devaneios, a procura-la, a segui-la, como o Milton foi visto, mais de uma vez, fazendo hora na porta da tal escola, na saída do turno.

O fato é que, passamos a avaliar as demais mulheres, que íamos conhecendo com o passar dos anos, com esse padrão inalcançável da Laura. Passou a ser parâmetro do ideal, do inatingível. Como se diz hoje, virou um “meme”. Uma vez, o Ademar foi visto com uma namorada linda, e logo alguém comentou perguntando:

_ melhor que a Laura?

E onde andará a tal Laura?

Tornou-se um problema para nossas vidas. Sempre que conhecíamos alguém, ficava a pergunta, como fica em relação à Laura? E se a Laura aparecer por aí? Mas a Laura era inalcançável: bonita, elegante, simpática, inteligente, culta, proativa, preguiçosa, rica, prendada, carinhosa, ágil, lânguida, forte, frágil, loira e morena, alta e baixa, magra e fofa.

Até quando algum filho ou neto aparecia com uma parceira, ficávamos pensando: será melhor que a Laura? E para nossas então colegas, quem seria o Lauro? E o Milton? Que fim levou? Teriam “ficado”? Teriam namorado? Não teriam? Terão se reencontrado? Estarão casados? Entre si? Filhos? Nunca mais se viram? É do que trata Kundera em seu excelente livro “a insustentável leveza do ser”. Somos todos assim, Lauras, Miltons, Moacirs.  Que ruim!  E que bom!

Lembrei disso porque, recentemente, entrei em uma reunião profissional e havia uma Laura que, aparentemente, reunia todos os requisitos para ser uma filha, ou até neta da Laura. Quase perguntei o nome da mãe e da avó, e onde teriam estudado. Mas me contive. Até porque, só conheci de relance.

 

Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # R2026jabrRe, 3.137 toques



 
 
 

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2 comentários


Jorge Gama
Jorge Gama
18 de dez. de 2025

Laura Maria Pelegrino, da lista?

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Glória Mota
Glória Mota
13 de set. de 2023

MUITO BOM, COMO SEMPRE. BJS.

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