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MASSAS,1964, 2º semestre, A Forja

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 11 de fev. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de jan.


As pessoas vão chegando dentro de latas convencionalmente chamadas carros.

Chega a um ponto em que os carros deixam de ser carros e passam a formar um

engarrafamento. Então as pessoas saem dos carros e convergem para a entrada, e

deixam de ser pessoas e passam a ser "massa".

Essa massa se aglomera nos portões da massa de cimento chamada Maracanã.

Antes do portão há uma massinha composta por pessoas que marcaram encontro com

conhecidos em torno da estatua dita do Belini, sem prever que outros teriam a

mesma ideia, o que tornava os encontros um tanto difíceis. Mas, depois de amassar

um pacote vazio de cigarros, e cansados de esperar os conhecidos, resolvemos

entrar.

Nas roletas é um amassamento completo, uma perfeita massagem, que contou

com toda a nossa colaboração, tendo em vista a massa feminina à nossa frente.

Passada a roleta, e tendo sido chamado de engraçadinho pela distinta à frente,

seguimos com os amigos, e não com a dita cuja, que não deixou de aborrecer com o

dito cujo fora.

Lá em cima, estendemos nosso olhar pelas arquibancadas, e notamos

contrariados que as laterais já estão ocupadas pela massa, (exceto a tribuna de

honra, que não é para as massas e sim para os padeiros) e vamos nos colocar atrás

de um gol, aguardando a partida.

Mas corno e muita gente sem fazer nada, logo surgem alguns passatempos,

como por exemplo, soltar uns negócios que parecem bolas de aniversário, mas não

devem ser, visto a grande resistência, e que todo mundo vai dando um tapinha, até

dar a volta ao estádio. De vez em quando, aparece um chato, que em vez de dar o

tapinha, segura a bola, e como ninguém quer dar bola para homem, a massa se

levanta indignada e o "cara" solta a bola, vencido pela "esmassadora" maioria, e

antes que leve um "traulitada' de algum crioulo, pois crioulo quando vai a jogo e

para ver o Brasil ganhar e dar "traulitada" nos outros.

Finalmente, entram os times em campo, naturalmente com meia hora de atraso,

pois se Inglês e pontual, brasileiro que se preze não faz hoje o que pode deixar

para amanha.

Para melhores esclarecimentos; o jogo era Brasil x Inglaterra, e assim não

precisamos contar o que houve durante a partida, se você viu muito bem, se não viu

azar.

Lá pelas tantas, quando o negócio parecia que ia ficar duro, cada ataque do

Brasil todo mundo levantava, e era aquela cena: - Senta! - Senta! É a tua!, etc.,

quando o Brasil perdia a bola, todo mundo sentava, e ninguém tinha visto nada, alias

não sabemos como é que o pessoal sabia que o perigo havia passado e sentava.

Depois o jogo foi "moleza', não há nada de especial a narrar.

À saída, foi novamente aquela massa escorrendo pelas rampas, e nos portões,

por alguma briga, ou coisa que o valha, havia um massão, e ao lado uma massinha, e

no meio desta massinha, alguém que sabia o que se passava no meio do massão,

portanto dentro da "lei das massas": a um massão corresponde sempre uma

massinha.

Entramos no meio da massinha levados de roldão pela massa, e eis que à

nossa frente, está a mesma massa do sexo frágil do início da história; novamente

nos amassam contra ela, e não nos opomos. Como ela faz o mesmo, resulta que

puxamos conversa e ela corresponde, e ao perguntarmos porque estava sozinha, diz

que se perdera dos pais naquela massa, e nos oferecemos para leva-la até em casa;

alias a esta altura já nem sabia mais onde estavam os amigos, mas o fato é que

levamos a menina até em casa (dela), e ficamos esperando com ela a chegada dos

pais, pois dizia ela, tinha medo de ficar sozinha.

Já que a história está ficando muito grande, devo dizer para terminar, que os

pais da menina, não chegaram ate eu sair, e ate que foi bom.

A massa estava ótima.


Contexto: resumo fantasioso dessa primeira ida ao "maraca" da Marilia, a primeira
namoradinha de mãos dadas e beijinhos inocentes e envergonhados e que o cronista teve o
privilégio de acompanhar. Aproveitando para registrar e ironizar o jargão de então, da esquerda
festiva, composta por privilegiados da zona sul carioca, para quem tudo era com, pelas e para as
"massas", no sentido de "povão" e para quem o que não fosse "militante" era alienado ou odioso
inimigo. Situação que veio a ser bem resumida pelos compositores Marcos e Paulo Sergio Valle,
por volta de 1965-66 na canção "A Resposta": <... falar de morro / morando / de frente pro mar /
não vai fazer ninguém melhorar ... >, que rendeu a dupla Valle um "patrulhamento", só superada
pela calma e talento dos irmãos.

Crônica publicada em A FORJA, no 2° semestre 1964,
jornal do grêmio do Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp-FNFi)
Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # R2026janRa, 3.179 toques





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