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  • Miguel Fernández

Meus Fuscas Falando

O primeiro carro lá de casa foi um Fusca zerinho 1961, cor de tijolo molhado (cerâmica?), comprado pelo meu pai sem avisar ninguém: surpresa. Eu tinha 14 anos, a idade do meu neto mais velho hoje. Que alegria! Ter ou não ter um carro era a linha divisória das castas da sociedade. O sentir-se inserido na sociedade de consumo que todos almejam. Todos sim porque “quem desdenha, quer comprar”.

Muito boas lembranças do carrinho, começando pelas viagens para a "estação de águas" no sul de minas, de onde guardo especial carinho por Cambuquira.

Essas "estações de águas" duravam 21 dias, com receituário médico e tudo, e eram moda mundial. Havia um ritual, por exemplo: às 07hs 100mℓ de água sulfurosa, 5 minutos depois 225 mℓ da água férrea e mais 150 mℓ da magnesiana. Às 11hs, coisa parecida e à tarde por volta das 15hs, outro tanto. Quanto mais combinações, arranjos e dosagens complicadas, mais fama tinha o médico e cada um tinha seus fiéis fãs. Os “pacientes” se exaltavam na louvação do seu em conversas intermináveis. Fazia fila nas fontes surgentes e naturalmente gasosas (creio que são águas confinadas em geodos) e deixava todos os pacientes hidratados, desintoxicados, com assunto e algo para fazer por 21 dias. O problema era o que fazer com os agregados.

Lá em casa o costume começou por volta de 1958 quando papai teve um “derrame de bílis” (icterícia?) e o médico impôs esse, hoje, “SPA”. Nessa primeira estação de águas papai foi só com minha avó (sogra dele), com quem, se não se davam mal, era nítido que não se apreciavam muito. Isso porque não se sabia quanto iria custar para irmos todos. O dinheiro era “contado” e havia muito medo do orçamento fugir ao controle.

Depois passamos a ir todos os anos, em julho, nas férias escolares. Primeiro ia-se de trem “baldeando” em Queluz (ou seria em Cruzeiro?). Posteriormente passou-se a ir de ônibus via Itatiaia e Itamonte. Muitos trechos em estrada de terra. Com a chegada do fusca, passamos a ir nele. Foi nesse fusca “tijolo” que dirigi as primeiras vezes lá em Cambuquira, para sobressalto (ou só encenação) de mamãe e “orgulho” do pai. Também foi a época das “gincanas” motorizadas, e até hoje não sei como papai me emprestava o carro. Eram formadas “duplas” e equipes, grupadas pelos hotéis, cada hotel com sua torcida organizada e tudo para espantar a monotonia.

Num dos anos (1963?) lembro que precisamos ir a Três Corações tentar cumprir uma tarefa: conseguir uma bolinha “perereca”, inutilidade (hoje chama “gadjet”) que acabava de surgir. A minha copiloto era linda (naquela idade todas as meninas são lindas) e, para impressionar, fiz uma besteira que, graças a Deus, não resultou em acidente: tentei ultrapassar um outro competidor. Em estrada de terra e em julho não chove, é só poeira. Se chegar perto do carro da frente não enxerga nada. Fiz isso durante um bom tempo até que quase saí da estrada, me assustei muito e “medrei”. Fizemos com calma e ganhamos a gincana porque conseguimos cumprir todas as tarefas. Aprendi que medo é um excelente companheiro e não faz mal a ninguém. Lembro do nome da co-piloto até hoje: Ricarda, do Leblon. Muito “safa”.

Em 64 ou 65, papai trocou o Fusca cerâmica por outro, “azul intenso” (ou nome parecido), já um pouco mais “forte”, creio que era 1200cc. Esse fusca durou um bom tempo conosco. Além de continuarmos a ir para Cambuquira (mais dois dias em Caxambú e dois em São Lourenço), usei muito durante a faculdade em rodízio com outros colegas.

Entrei na faculdade de engenharia (na ilha do fundão) em mar1966 e era duro ir para o Fundão de condução. Quando comecei a trabalhar era uma necessidade para poder cumprir os horários. Papai era “quase” sempre compreensivo e me cedia o carro. “Quase” sempre. Em compensação eu mantinha limpo e lavado e fazia a manutenção. Hoje ninguém acredita, mas fora coisas mais complicadas ou que demandassem ferramentas especiais éramos nós mesmos que trocávamos o óleo, regulávamos as correias, os pneus, as velas, lâmpadas, filtro de ar, enfim, quase tudo.

O mais difícil era conseguir o carro emprestado à noite. E essa era a demanda principal: sair para paquerar e para namorar! Parodiando o famoso filme “se meu fusca falasse”: se os bancos de trás falassem seria um problema. Quantas corridas de submarino na orla ou no Alto da Boavista, Eni que o diga. Quanta dificuldade, malabarismo, contorcionismo. Quanta fila nos incipientes motéis (creio que o primeiro foi um chamado 77 na então erma rua Olegário Maciel, na Barra da Tijuca). Era a época da jovem guarda do Erasmo & Cia., das pílulas anticoncepcionais, das revoluções nos costumes. Quantos “detalhes”.

Aí no fim do último período do curso de engenharia no fundão (1970) namorei a irmã de um colega da engenharia, vestibulanda de medicina, que tinha um fusquinha branco-creme e gostava de me levar e buscar. Minha motorista!. Chiquéerimo. Mas uma faca de dois gumes: controle intenso, dela, do irmão, etc..

Em dezembro desse 1970, comprei o meu primeiro carro: um fusca 1300, verde-claro, que o pessoal dizia “verde-calcinha” (também tinha o azul-calcinha e o bege-calcinha, pelo menos). Comprei da Zezé, uma secretária da Montreal Engenharia que tinha comprado havia um ano, mas concluíra que a relação custo-benefício não lhe interessava ou não podia arcar. Praticamente zero. Que alegria, que emoção, sentir-se gente, ter seu próprio carro! Em jan71, recém-formado, fui trabalhar em São Paulo e mudei pra lá com o Fusca verdinho, placa do Rio de Janeiro.

Placa do Rio paquerando aos sábados e domingos na Rua Augusta em Sampa era uma covardia (placa de sampa no Rio dava o mesmo resultado porque a verdade é que santo-de-casa-não-faz-milagre). Registre-se que, como todos iam para a Rua Augusta nos sábados e domingos, gerava-se um engarrafamento total. Você entrava e não sabia quando ia conseguir sair. Mas ninguém reclamava pois todos estavam lá pra isso. As meninas em seus carros os rapazes nos seus. Sempre pelo menos em dupla. Trocavam-se telefones em papeizinhos escritos na hora, jogados de um carro para dentro do outro, daí o nome “torpedos”. Não havia ar condicionado nos carros, nem direção hidráulica, nem freio assistido a vácuo, muito menos nos fuscas, era todo mundo de janelas abertas.

Não sei bem porque, mas tenho para mim que o fusca tinha algo de afrodisíaco. Tantos trabalhos de mestrado e doutorado sem nexo e ninguém pesquisa a influência do fusca na demografia da classe média nos anos 60/70?

“Pega” (corrida, competição), nunca fiz. Tava tudo muito bom pra me arriscar a morrer. Queria era aproveitar E não podia decepcionar o anjo que me acudiu naquela gincana. Embora gostasse de dirigir, e ainda goste, e em velocidades altas. E esse negócio de “pega”, luzinhas de enfeite, som alto, adesivos, tatuagem, e outros adereços é uma coisa muito cafona. Nem fiz nem me juntava a quem fazia. Outra tribo.

Viajava ao Rio muitos dos fins de semana. A maioria das vezes de carro. Tive dois incidentes / acidentes sérios na Dutra, ambos com meu carona e colega de escola e de profissão, o querido Rondon. Ambos milagrosamente sem nenhum arranhão em nenhum de nós dois, graças ao bom Deus. Nesse período também fui abalroado de frente por um outro carro que veio na contra-mão praticamente na frente do bar do Osvaldo na Barrinha, o que interrompeu um flerte com uma Denise. Os 3 acidentes foram à noite e nas 3 vezes quem acudiu e consertou o carro foi o Jorge Roberto, querido colega de turma, na oficina que ele tinha na rua São Clemente, em Botafogo, pertinho de nossas casas.

Em 72 vendi o fusquinha para comprar o SP2 prata, quase zero, do Cel. Eng. Hélio Franco. Aí começa outra história...

(*) A propósito de um curto desenho animado que recebi na passagem de ano 2019 para 2020 sobre o fim do fusca (besouro, VW), resolvi escrever esta minha memória afetiva a respeito. Os VolksWagen, ou “carro do povo” eram conhecidos como “besouro” (por lembrarem o perfil de um besouro), ou pejorativamente de “bunda” (todos têm), ou, não sei porque, “fusca”. Saudades

Miguel Fernandez y Fernández, engenheiro consultor, cronista, em dez2019,

www.engenheiromiguelfernandez.com.br

7.800 toques, R2b

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