Moreirão
- Miguel Fernández

- há 4 dias
- 3 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Era uma vez uma “empresa de economia mista”, na verdade uma estatal, em um país da américa latina, prestadora dos serviços de abastecimento de água de uma grande região, no século passado. Nessa empresa, destacavam-se alguns profissionais, em especial o diretor de produção, um engenheiro chamado Moreira.
Sem menosprezar outros diretores, era êle que, de certa forma, levava o dia-a-dia da empresa nas costas. Sua diretoria não podia falhar. Se falhasse, a cidade não tomava banho. Na verdade, a cidade parava. Todos o respeitavam, dentro e fora da empresa, pelo tempo em que já havia assumido essa responsabilidade e dado conta dela, com competência.
As contratações de fornecedores, aí incluídos os serviços de engenharia que essa estatal fazia, usava o critério das “concorrências pelo menor preço”, em certames que os interessados apresentavam suas propostas em determinada data, perante todos os interessados, para seleção do vencedor.
Não que o menor preço seja o melhor preço, nem o melhor serviço, nem a melhor solução, nem os melhores produtos, nem os melhores interesses da contratante, nem haja leis que obriguem, embora haja as que facilitam esse procedimento. Entre os burocratas da américa latina, é o critério de escolha que costuma ser mais usado, por diversos motivos que não serão abordados neste texto (ver *01).
Tirando os inocentes, todos sabem que essas concorrências por esse critério destroem as empresas fornecedoras locais, destroem a qualidade e a durabilidade do que se pretende adquirir. Tirando os inocentes, todos também sabem que, por isso mesmo, e por questão de sobrevivência, as empresas acabam conversando entre si para evitar o suicídio coletivo.
Em determinada ocasião, o assunto chegou aos ouvidos do Moreira. Não que êle não soubesse, pois inocente não era, mas preocupou-se. Precisava que as coisas andassem direito, no interesse da concessionária e no interesse da população. Da última vez em que as empresas haviam se entendido, prevaleceram critérios que não interessavam ao contratante, como por exemplo, a melhor empresa em eletromecânica foi fazer construção civil e a melhor em construção civil foi consertar tubos nas ruas, e a que mais entendia de tubos nas ruas acabou fazendo uma ampliação da estação de tratamento. O melhor fornecedor de cloro acabou ficando com o sulfato de alumínio e o melhor de cal ficou com o cloro. É que, na hora de se entenderem, apareciam uns “espíritos-de-porco”, e tiveram que sortear a distribuição das coisas.
Moreira era voluntarioso, queria consertar o mundo, de uma sinceridade cativante, presente em todas as frentes, tinha até o apelido carinhoso de Moreirão. Então mandou chamar na sua sala de reuniões, em um fim de tarde, um representante de cada empresa interessada em fornecer coisas e em prestar serviços à concessionária estatal. Foi um diretor de cada uma.
Quando chegaram todos, o Moreira abriu o jogo e foi logo dizendo:
_ fiz o orçamento justo de cada fornecimento, obra ou projeto, e queremos assim: fulano que entende mais disso vai fazer isso por tanto, beltrano que tem pessoal bom naquilo vai fazer aquilo por tanto, ... etc e tal
Terminou por distribuir todo o serviço e compras por todas as empresas da praça, das pequenas às grandes.
Silêncio geral, ninguém acreditando no que estava acontecendo. Todos felizes, uns mais e outros menos, mas era uma solução justa e melhor que as brigas de sempre.
Mas, como tem sempre um espirito de porco, o diretor de uma das empresas, o Augusto, que se achava melhor e / ou maior, reclamou:
_ Não é justo, se houvesse concorrência eu ganharia uns 4 contratos e só estou levando um.
E o Moreirão respondeu em voz alta, bem ao seu estilo:
_ Ô Augusto, tu entra na "suruba" e só quer comer? Tem que dar também.
Ante a gargalhada geral, o Augusto calou a boca e “foi se coçar”, como se dizia na época.
As coisas funcionavam bem nessa época em que o Moreirão se expunha, fazia o que precisava ser feito, defendia a empresa em que trabalhava e, por tabela, os fornecedores locais, para o bem de todos e felicidade geral da nação.
Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 2026fev Rb, 4.120 toques
Comentários