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Perestroikas, Glasnosts e Dissidências

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 18 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Seria por volta de 1989 ou 1990 e ele resolveu ir passar um fim de semana esticado em uma pousada no início da subida já no Parque Nacional de Itatiaia, com a então companheira.

Chegando lá, para sua surpresa, também estava ali hospedado o Evo Brito, com a esposa e outros familiares. O Evo era um ex-professor que lhe trazia boas lembranças. Rápidamente se enturmaram e soube, que uma parte da família Brito, havia marcado um pequeno encontro, ocupando quase toda a pousada.

No decorrer do primeiro dia, deu-se conta que o dono da pousada, o Fernando, também era primo do Evo e a família era toda, historicamente, ligada aos partidos ditos “comunistas”, pelos assuntos, das conversas, no bar, no bilhar, na piscina e certamente nos quartos.

Assuntos interessantíssimos se discutiam, principalmente as novidades vindas da então “cortina de ferro” a URSS (União da Repúblicas Socialistas Soviéticas) e seus satélites, que já haviam iniciado os movimentos “Glasnost” (abertura) e Perestroika (reestruturação), principalmente na Polônia.

Seria a convenção de um ramo do partido? Seria a organização de uma nova aristocracia em formação por vínculos familiares e hereditariedade? A “Nova Classe” anunciada (ou denunciada?) pelo Iugoslavo Milovan Djilas?

Parece que a família do Brito tinha combinado de cada um levar alguma coisa para um “churrasco” ao lado do bar da pousada, ao anoitecer desse sábado de meia-estação, quando um friozinho gostoso começou a tornar as proximidades das brasas aconchegante.

Os dois casais “estrangeiros” acabaram se inserindo, até por falta de opção, pois essas pousadas são relativamente isoladas. Como todos sabemos, não existe nada mais democrático que um bar, até porque, ”in vino veritas”.

Sem saber das regras e burocracias da “esquerda internacional”, os hospedes que ali estavam por acaso, abriram os trabalhos com caipirinhas e uísques nas proximidades do calor aconchegante das brasas da churrasqueira.

À medida que foram chegando os Britos e agregados, o destilado mudou para vodka. Vodka Wyborowa, Polonesa, importada, legitima, com sêlo de importação e tudo. Nada de Paraguai.

E o churrasco foi andando, todos felizes e confraternizando, já com muita inspiração alcoólica, envolvendo os militantes e os demais hóspedes. Já seriam umas 24 pessoas, todos felizes e “altos”, quando chegaram mais uns 7 convidados (3 casais e um solteiro), que estavam em alguma outra pousada nas imediações. Esses 7, também militantes, embora aparentados dos Brito, eram “agregados”, ou seja, com outro sobrenome, digamos que fossem a família “Moletom” ou algo parecido.

Os Moletom chegaram, também já “altos”, trazendo uma caixa de garrafas de vodka Stolichnaya, Russa, importada, legitima, com todos os predicados legais, sêlos de exportação e de importação.

Quando os Brito ofereceram aos recém-chegados, a vodka Wyborowa que já circulava, o Moletom solteiro disse em alto e bom som:

_ com as mudanças politicas na Polônia a vodka dali já não é mais fabricada com a pureza de espírito de um bom comunista, e se recusou a tomar a Wyborowa oferecida pelos Brito.

O “clima fechou”, como todos perceberam, especialmente os que “caíram-de-paraquedas” naquele recinto, ou seja, os dois casais ainda não catequisados e os empregados da pousada.

As coisas começaram a ir de mal a pior porque os Brito, em represália, não aceitaram beber a Stolichnaya dos Moletón.

Meia hora depois, de repente, o Evo e o Moletón solteiro estavam rolando no chão, derrubando cadeiras e mesas e a esposa do Evo desesperada, tentando apartar. Era uma “dissidência” levada longe demais.

Foi preciso os “estrangeiros” e os empregados da pousada se intrometerem, energicamente, para evitar o pior pois, como se sabe, em churrascos há muitas facas e espetos.

Como alguém chamara a polícia e, surpreendentemente, esta chegou muito rápido, os mais exaltados (uns 4) foram presos e levados opondo grande resistência pois ainda queriam se agredir entre si.

A ditadura militar no Brasil havia passado o governo aos civis em 1985 e os esquerdistas já podiam circular livremente, não fosse isso, o delegado de Itatiaia poderia pleitear uma promoção pela quantidade e qualidade de “subversivos” presos. Bom, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Com a total retirada dos Moletom, o churrasco foi concluído com calma e sucesso pelos remanescentes mais calmos e mais “altos”. Como se sabe, a bebida alcoólica é vasodilatadora e tende a acalmar a maioria esmagadora das pessoas. Não se iludam, quando não é assim, é porque não é só álcool.

O butim de umas 18 garrafas de vodkas “legitimas”, foi apreendido pelo dono da pousada que, embora Brito e embora comuna por religião, ali era “o empresário”, o lúcido.  Tão lúcido que evitou que a policia as confiscasse e as compartilhou com os dois casais como recompensa pela ajuda e pelo transtorno. Metade Russas, metade Polonesas para ninguém se aborrecer.

Comprovou-se depois que ambas eram bem-feitas, certamente para manter os clientes e para consumo próprio, por algum empresário de lá, por conta própria ou com autorização dos politburos. Igualzinho o que se faz por aqui.

Conversa-vai-conversa-vem, nosso amigo saiu de lá, convencido que a briga não foi só por causas etílico-políticas. Como bom observador, deduziu que havia mulher no rôlo. Como qualquer um que estudou mitologia greco-romana sabe, tudo já foi catalogado em fábulas. Tróia não acabou há 4 mil anos, nem os humanos, com suas crenças, suas ilusões e sua estupidez



Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 2024nov/dez R2025dezRc,  5.486 toques




 
 
 

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