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Reincidentes Acidentes

  • Foto do escritor: Miguel Fernández
    Miguel Fernández
  • 18 de dez. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 16 de jan.


Na letra da música de “O Bêbado e o Equilibrista”, com genial ironia e oportunidade, João Bosco e Aldir Blanc cutucavam o ambiente de então lembrando: caía a tarde feito um viaduto, os viadutos estão caindo, estão caindo os viadutos!

Lembrei-me disso quando, recentemente, caiu um viaduto em Gênova, na Itália, e me propus a escrever um artigo sobre as obras de engenharia, cada vez mais feitas pelo menor custo, cada vez com menos manutenção como se tivessem que ser eternas. Com o colapso do viaduto da Marginal em São Paulo, meu pretenso artigo pareceu-me chover no molhado e fui tratar de outros assuntos.

Hoje, com o acidente da Barragem do Feijão, vejo que não há como fugir ao tema. Algo está muito errado. Quando do lamentável “acidente de Mariana”, um destacado colega engenheiro, de minhas relações profissionais e sendo especialista do ramo de mecânica dos solos, foi contratado por um fundo de investimentos estrangeiro para fazer um diagnóstico do que houvera. Esse fundo tinha investido em uma das sócias do empreendimento. O trabalho era confidencial e nunca pude vê-lo, mas entre uma conversa social e outra, soube que a conclusão desse colega foi mais ou menos a seguinte:

“O presidente da empresa foi contratado porque tinha uma MBA não sei de onde; o diretor financeiro, idem; o diretor-técnico tinha que trabalhar tudo a custo mínimo, de preferencia terceirizando tudo, até as atividades-fim, porque a legislação era confusa e extorsiva. Esses gênios dos MBAs precisavam maximizar lucros e seus bônus para agradar aos acionistas e garantir sua parte, tudo dentro da lei, claro! E quais são as leis que regem as obras de engenharia? São as da burocracia e do “menor custo de obra" (seja obras, fornecimento ou projeto, para eles é tudo a mesma coisa).

Assim, meu amigo, que já andava muito por lá antes do acidente, lembrou que todos usavam capacete (embora 90% da obra fosse a céu aberto), cinto de segurança, coletes sinalizadores, luvas, botas, óculos, só se podia circular a 20km/h e com faróis acessos, o Crea sabia que as anuidades e as licenças estavam pagas em dia, e, estando tudo “dentro da lei”, estava tudo ok.

Então perguntamos, eu e o leitor, como podem ter caído (colapsado) essas barragens, se as papeladas e taxas do Crea estavam todas pagas em dia, ISS, ICMS, PIS, Cofins, IR, ICM, IPI, tudo em dia, segurança do trabalho perfeitamente conforme os manuais, refeitório fiscalizado pela Anvisa, férias em dia, tudo contratado pelo menor custo para não haver sacanagem! Não, não é possível que tenha caído!

Essa “Barragem do Feijão” que colapsou ontem em Brumadinho, MG (nem chovendo estava), novamente nos arredores de Belo Horizonte, isolando o notável Inhotim, e quem lá estava, era outra “barragem de rejeitos de mineração”, ou seja, onde se acumula para sempre, o que não se aproveita do material minerado. Pelo que entendi, de consultas que fiz hoje a colegas, foi alteada (originalmente teria 40m e foi passada para 70m ou mais, números não confirmados), e estava sem receber mais rejeitos e sendo reforçada porque foi constatada a necessidade. Parece que o número de vítimas será recorde, o que garantirá uma atenção longa da mídia. Outros acidentes acontecem pelo mundo, alguns sem vítimas, e portanto com pouca repercussão. Certamente haverá os que se dedicarão a discutir se a culpa foi dos militares, do PSDB, do PT ou do novo governo. Enquanto não se revalorizar a engenharia, os acidentes seguirão aumentando, e cada vez mais perto de mim e do leitor.


Rio de Janeiro, publicado no Jornal do Brasil, em 26 de janeiro de 2019.
Miguel Fernández y Fernández, engenheiro, cronista e articulista, membro da Academia Nacional de Engenharia e do Instituto de Engenharia # escrito em 2018/2019, 2.995 toques


 
 
 

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