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  • Miguel Fernández

O Especialista (*1) e (*2)

Atualizado: 30 de Jun de 2020

VANCÊS com certeza já ouviram falar que nós estamos no tempo dos especialistas. O meu ofício é de carpinteiro. De primeiro eu fazia casa, fazia galinheiro, e inté igreja eu fazia. Mas depois vi que era perciso um especialista no meu ofício. Assuntei, assuntei inté que dei com a minha especialidade. Fiquei nela! Minha gente, ocês estão falando com o melhor construtor de privada em toda essa várzea do Pixiri.


O meu primeiro freguês foi o Pedrinho Sargão. Ele andou ouvindo que eu estava especializado e arresolveu exprementar. Fiz pra ele uma dessas sem novidade, pra família grande, de treis buracos. Com esse trabalho criei fama, e desde entonces todo o meu tempo e todo o meu sentido está nessa especialidade. Pra falar verdade, quando o serviço anda meio escasso, eu faço uns bauzinhos pra vender. Mas o meu coração tá é na construção de privada. E não pensem vancês que quando eu termino uma, não tenho mais nada que ver com ela. Não, senhor! Dou pra todo o freguês uma garantia de meio ano, sem cobrar um vintém! Expliquei isso pro Pedrinho Sargão quando fiz a latrina dele. Um belo dia ele veio me percurar e disse ansim:


- Óia, Mané, quando ocê puder, dá uma passadinha lá p'lo meu sítio. Aquela latrina que ocê fêz tá me dando trabaio.


- Vai daí trepei no meu Ford-de-Bigode, toquei pro sítio do Pedrinho e me escondi atrás dumas árvores pramode examinar a situação.


Era bem no tempo da colheita e os empregados do homem estavam indo na casinha e ficando lá dentro mais de meia hora. Alguns, inté uma ! Veja só!


Intão eu me acheguei e disse pra ele: "Escuite, Pedrinho, ocê tá mesmo c'um bruto problema de latrina". Garrei o baú das ferramentas e entrei pra examinar a istrutura.


Primeiro arreparei no jornal pendurado no prego, pensando que ali podia estar a explicação. Mas não era nem um desses com figura pra distrair. Despois atentei pro assento e ali mesmo vi onde é que estava a coisa: o buraco que eu tinha feito dava muito cômodo. Intão peguei o serrote e deixei o assento quadrado, de quina bem viva. Aí voltei pro lugar de dantes; eu aqui, as arves no meio, e a latrina ali. Fiquei quase duas horas arreparando os empregados que iam lá. Seu moço, nenhum demorava mais de quatro minutos!


Depois disso, não fazia bem um mês e eu já tinha acabado duas latrinas pegadas, pra escola, e estava arrematando um latrinão importante, o maior trabalho que já se fez inté agora, uma de oito buracos, pro curtume dos italianos. O Majó Luciano esteve lá e viu a obra deste seu criado.


- Mané - ele me disse - estive vendo essa de oito que ocê fez pros gringos. Obra distinta, seu. Eu mais ou menos estou querendo construir no sítio que era do velho Lourenção, e inté me alembrei de lhe dizer que ocê fizesse os perparos e botasse preço pra uma privada decente.


- Seu Majó - eu disse pra ele - ocê bateu na porta certa. Isso é trabalho pra especialista. Assim que eu completar a de dois assentos que estou fazendo pro Delegado, dou uma passadinha por lá.


Daí uns dois dias toquei pro sítio do Majó Luciano. Cheguei lá na hora da bóia. Bato na porta e vejo que o homem está na mesa c'um mundaréu de visita. Aí, não querendo atrapalhar ninguém, arrodeio pra janela e grito: "Como é, seu Majó, onde é que boto essa latrina que ocê me pediu?"


O Majó Luciano saiu pra fora e aí pegamos a ver o melhor lugar. Ele, isso tava decidido a botar perto duma estradinha torta, embaixo dum enorme pé de laranja azeda. Mas eu fui logo dizendo: "Seu Majó, eu é que não fazia isso. E vou lhe dizer por quê. Pra começar, embaixo de árvores não é certo. O barulho mais esquisito da natureza é o de laranja podre caindo no telhado. Ao despois, tem outra coisa. É essa estradinha que faz um cotovelo e passa por debaixo da árvore. E lhe digo mais: aquele chão ali não chupa umidade, e no inverno fica muito escorregoso. Pense no seu pai, Majó, e se alembre que esse é quase que único prazer do velho. Olha o coitado vindo aí numa noite de chuva, co'a camisola batendo nas canelas e no outro dia de manhã ocê encontra o velho entalado no barro, ou quem sabe inté com a barriga enfiada num desses arados aí da curva. Não, Majó. Ponha essa privada no alinhamento da casa, e se não lhe fizer diferença, um pouquinho pra lá do monte de lenha. Vou lhe dizer por quê.

"Imagine uma mulher, por exemplo, quando ela vai lá fora. De volta ela já traz uns quatro paus de lenha, e arrepare que em média as mulheres vão lá fora de quatro a cinco vezes por dia. Isso faz vinte paus de lenha dentro de casa, sem trabalho nenhum.


Também pode se dar outro caso. Se a mulher é meio encabulada, quando vê algum homem por perto, é garantido que ela não entra. Intão, pra disfarçar, ela faz que foi buscar lenha, aproveita pra trazer uns paus, e espera outra volta. No geral a mulher meio vergonhosa, inda mais sendo uma empregada nova, chega a fazer inté dez viagens no monte de lenha antes de se arresolver a entrar de qualquer jeito. Num dia de sorte, quando bate meio-dia, ocê já está com toda a lenha dentro de casa. Não vê a economia que isso é, Majó?


"No que toca ao buraco, todo o cuidado é pouco. Escute o que eu lhe digo: cave um buraco fundo e bem largo. É muito mais bonito ver uma privada pequena em riba de um buraco grande do que uma privada grande com um buraco pequeno por baixo. Outra coisa: quando ocê abre direito o buraco, o buraco fica aberto, e aí ocê não fica com aquela preocupação de que mais dia menos dia vai ter que cavar de novo.

"Agora, quanto à construção - eu disse pra ele - posso lhe botar sarrafo ou barrote. Sarrafo dá conta do recado. Barrote custa mais um pouco, mas vale a pena. Barrote é pro resto da vida. Não digo que não pudesse botar sarrafo, Majó. Mas calcule a sua tia velha, a Dona Inácia, que já não tem mais o que engordar. Um dia destes ela vai lá, quando o sarrafo já não aguenta, e olha a velha embutida. Outra coisa que ocê tem que se alembrar - eu disse pra ele - é do São João. A rapaziada vai lá de a quatro, de a seis, tudo cantando e bebendo ou coisa ansim; e eu quero lhe dizer que não há nada pra estragar uma festa como ter que desantalar um sujeito lá de dentro. Barrote é o que lhe digo, barrote pra ficar descansado.


"E agora, pra falar no telhado, Majó, posso lhe fazer de meia- água ou de duas águas. De duas águas custa um pouco mais, mas muita gente boa manda fazer de meia-água. E vou lhe dizer por quê.


"O telhado de meia-água tem dois cantos menos pros marimbondos fazer ninho. E numa tarde de verão não há nada que desinquiete tanto como os marimbondos a zumbir em volta da gente, quando ocê está lá lendo um pouco, maginando, pensando. E depois tem outra coisa, Majó - eu disse pra ele - telhado de meia-água dá porta mais alta. Olhe esse seu filho crescendo que nem abóbora, e ele não cresce pra baixo como cola de cavalo. Telhado de duas águas dá porta baixa; e olha aí o guri rachando a testa toda a vez que vai na casinha. Não, Majó, ponha de meia- água; pode não ser tão bonito mas é muito prático.


"Vamos ver agora os apetrechos. Posso lhe dar um prego grande ou um gancho de arame pro jornal, e além do mais, um caixãozinho pros sabugos. Calcule o seu pai, por exemplo. Velho é sempre da moda antiga e ele há de querer sabugo. Ansim, faça o que lhe digo, ponha as duas coisas, Majó. O caixãozinho pra sabugo não vai lhe custar um vintém a mais, e serve pra manter a paz na família. Não se tira manha de cavalo velho. Nem se endireita sombra de vara torta.


"E já que estamos nos apetrechos, vou lhe dizer alguma coisa sobre uma questão tênica que me puseram outro dia. A pergunta foi esta: 'Qual é a resistência, ou por outra, quantos dias dura o jornal de domingo pra uma família de oito pessoas, numa privada comum, de um buraco só?' Pra falar a verdade, a princípio embatuquei um pouco. Mas despois, como era uma pergunta de merecimento, andei tirando a minha conclusão e vi que se ocê bota o jornal no primeiro domingo do mês ele aguenta inté o sábado da outra semana. Mas isso é não contando com as visitas da cidade nem quando é tempo de goiaba.


"E outra coisa: eles agora estão metendo anúncio com uma tinta vermelha que é um despropósito. Vancê me compreende, Majó. Um cristão que não arrepare antes é capaz inté de ir no doutor. Não, alguém devia dar uma providência pra isso, e eu inté já andei me ensaiando pra escrever pessoalmente ao Dr. Chateaubriand.


"Quanto ao fechamento, posso lhe dar uma tramela de puxar com cordinha ou um ferrolho de trancar por dentro. A tramela com -cordinha, a bem dizer, não lhe custa nada; mas, franqueza, não é coisa garantida. Se alguém começa a tentear na porta, a tramela sai fora ou intão é a cordinha que rebenta. Agora, c'um ferrolho por dentro, se ocê quiser, ela é sua por toda a tarde. Não, Majó; meta um ferrolho de primeira e se abanque descansado, porque não há nada pra estragar os nervos dum homem como estar sentado lá dentro, pensando, sem um fechamento de confiança". E o Majó teve que concordar comigo.


"No que toca a janela - eu disse pra ele - alguns querem e outros não querem; Agora já não estão muito na moda. Se eu fosse vancê, Majó, não queria saber de janela. E vou lhe dizer por quê. Imagine uma pessoa que vai lá. Pode ser que ela esteja meio apressada, ou quem sabe se já não esperou muito. Se a porta está fechada e ocê não responde, pode contar que arrodeiam pra espiar pela janela, e aí ocê já perde a sua concentração.


"Agora vamos tratar dos respiros, essas aberturinhas que eu recorto nas portas. Posso lhe fazer no formato de estrela, de triângulo ou intão de meia-lua; não tem muito que escolher, já que todos servem pro mesmo fim. Muita gente gosta de estrela porque dá uma sombra cheia de bico. Outros gostam de meia-lua porque acham bonito. No ano passado todo o mundo queria estrela, mas agora já estão se acalmando e pedindo meia-lua. De vez em quando eu faço um coração ao lado do outro pra algum casal novo; e também um cacho de uvas pros graúdos. Mas isto é respiro extraordinário e eu não gosto muito de recomendar porque tomam tempo e custam dinheiro.


"Majó eu disse pro homem eu se fosse ocê não me adecidia muito depressa sobre o respiro, porque o respiro tem muito que ver com a buniteza do conjunto. Também não se deve exagerar, como o Dionísio das Treis Vendas. Ele quis as duas coisas, estrela e meia-lua, sem ouvir o conselho de quem sabia mais, e hoje está arrependido. Mas agora é tarde; porque quando eu corto um respiro, não tem mais remédio. É, minha gente; ter que sentar lá todos os dias, às vezes de manhã e de tarde, e sempre olhando p'rum respiro que não é do nosso gosto, é coisa que cansa.


"Eu nunca ponho madeira com nó. É sempre tábua sãzinha. E vou lhe dizer por quê. Quando a tábua tem, nó, se o nó não cai por si, pegam a empurrar até que tiram. E se for na porta, pode contar que o buraco é sempre alto demais pra ocê, sentado lá dentro, poder olhar pra fora; e sempre de boa altura pra algum bisbilhoteiro poder olhar pra dentro, faltando o respeito com quem está quieto.


"E a porta, Majó? Como é que quer que abra? Pra dentro ou pra fora?" O homem arrespondeu que não sabia. Intão eu disse pra ele: "Pra dentro, Majó, sempre pra dentro. E vou lhe dizer por quê". Aí expliquei: "Calcule ocê sentado lá, Majó. A porta, vamos dizer, nem aberta, nem fechada; com uma fresta de dois palmos dos grandes. Ansim ocê tem bastante ar e deixa o sol entrar. Agora, se aparece alguém, ocê, sem se levantar, dá um pontapé na porta e não se incomoda mais. Mas se a porta é de abrir pra fora, onde é que ocê fica, Majó? Ocê não pode se arriscar a abrir a porta pra arejar e pra lagartear um pouco no sol; porque, se aparece alguém, ocê não pode se levantar de onde está e inda fazer uma voltinha pra ir lá fora puxar a porta, sem dar o que ver, pode?" Aí o Majó Luciano viu que eu tinha toda a razão.


Intão eu fiz a porta dele como todas as minhas portas: abrindo pra dentro, e de frente pra estrada, que é o lado do sol. Isto é coisa que eu posso dizer pra ocês todos Não há nada que descanse tanto como ficar lá de manhãzinha, num assento bem cômodo, com dois palmos de porta aberta. No inverno o sol velho bate na gente e meio que amolece o corpo, d-a-n-d-o d-a-n-d-o alívio pra ocê.


"E agora, a pintura - eu disse pra ele. De que cor quer, Majó?" O homem disse que a tenção dele era pintar de vermelho. "Majó - eu retruquei - bem que posso pintar de vermelho, e vermelho é cor bonita. Também posso pintar de verde, e verde não é feio. Isso tem cor que não acaba mais, e todas dão muita vista. Mas não é prático pintar de uma cor só. E vou lhe dizer por quê. Coisa de uma cor só não se enxerga muito bem de noite. É perciso contrariar, que nem nas cancelas onde passa o trem, e botar uma cor diferente da outra.


"Eu se fosse ocê, pintava de vermelho bem forte atravessado com lista branca. É bonito de dia e, de noite, quando ocê não tem tempo de andar percurando, é fácil de enxergar.

"Muita gente nem sabe quanta coisa é perciso calcular pra uma privada de primeira. Não, Majo, vou lhe dizer, e ocê pode acreditar que isso não é serviço pra amador. Espiar a do vizinho e pensar que compreendeu todo, não adianta; sempre -tem uma coisa que ocê não arreparou. A pior desgraça que assucedeu por aqui nestes anos foi porque os filhos do velho Ataliba pensaram que sabiam um pouco do ofício e não sabiam nada.

"O velho Ataliba, que agora já passa dos noventa, mora aí detrás desse morro com os filhos. Um dia ele mandou me chamar e perguntou por quanto eu fazia a obra. Bom, pra lhe encurtar o caso, acharam muito caro e arresolveram fazer eles mesmos. Aí é que começou a coisa.


"Eu nesse tempo estava fazendo uns bauzinhos pra vender e, quando passava pela estrada, via o trabalho deles. Não sou homem de andar metendo o nariz na privada dos outros. Ansim, quando eu ia passando e via os filhos do velho, eu só dizia como vizinho: Intão, construindo um pouquinho, não?' Ocê pode ver que eu não me entremetia no que não era da minha conta. Mas, olhe Majó, nenhuma hora me passou pela cabeça que eles não fossem se incomodar com aquela latrina. E se incomodaram mesmo. Pra quem olhava por fora, parecia um bom serviço; mas como eles não tinham conhecimento do ofício não firmaram a obra como é direito.


"Calcule ocê que eu meto uma viga de oito por dezesseis, Inteira, de alto a baixo, e inda enterro a bruta quase metro e meio no chão. É por isso que latrina minha ocê nunca vê tombada no chão. Podem arrancar por cima, mas derrubar é que não derrubam!

"Pois o que assucedeu foi isto: eles não cravaram bastante a tal privada e, inda por cima, pintaram toda de vermelho - um erro atrás do outro!

"Aí foi como lhe digo :era urna noite escura que nem carvão. O velho Ataliba estava lá dentro. Nisto veio uma mula e achou de se coçar contra a privada. Ah! Deu duas ou treis rascadas, afrouxou as viguinhas deles, e atirou com a latrina no chão e o velho lá dentro.


"O velho intão começou a gritar e os filhos ouviram aquela zoada. Um deles parou a orelha e disse: 'Que barulheira é essa? Inté parece que estão batendo nas galinhas.' Entonces eles pegaram no lampião e foram no galinheiro. Chegaram lá e não viram nada de novo. Voltaram pra casa. Aí escutaram o cachorro ladrar e o outro disse: 'A coisa parece que é lá pros lados da privada.' Mas ela estava tombada e, pra cúmulo, toda pintada de vermelho; de modos que demoraram a achar.


"Nesse meio tempo o velho tinha ficado tão aforismado que se meteu a querer sair pelo buraco do assento, bradando como o demônio. Os filhos conheceram a voz dele e vieram correndo. No que eles iam chegando o velho escorregou p'rum lado e se foi buraco adentro. Aí intão é que eles não se achegaram. Ficaram ali, só na beira, chamando 'Vem, pai! Vem, pai!' Vê ocê, Majó, que desgraça foi essa; e dizem que desd'isso o velho já não tem mais oprestígio que tinha."


Bom, o tempo foi passando e eu terminei a privada do Majó Luciano. Gentes: todo o mundo diz que, despois da minha de oito buracos, essa é a melhor privada que já se fêz neste município.

As vezes, quando eu estou querendo ficar triste, maginando que tenha errado a profissão e devia ser veterinário ou curandeiro, trepo no meu Ford-de-bigode e toco pela estrada, calculando pra chegar no sítio do Majó na hora da entrada do sol.


Quando a estrada começa a descer o morro, aí nós paramos. De lá é que se vê todo o sítio dele. Intão ficamos ali mesmo, olhando pra vista. Lá está a privada, numa subidinha, pintada de vermelho com lista branca, cheia de flor do campo em volta. E o sol velho se escondendo, largando luz em cima dela. A gente ouve um cachorro lá longe, trazendo as vacas pra tirarem leite, e o cata-vento do Majó rangendo, puxando água entra dia sai dia, que nem eu.


E olhando pra essa vista do meu trabalho, fico orgulhoso. Encho o peito de satisfação e inté me ardem os olhos. Aí eu digo pra mim mesmo: "O pessoal tem razão. Depois da minha de oito buracos, essa é a melhor privada do município. Sei que fiz bem em me especializar. Estou bem montado na vida. Só quero que o meu guri, que está crescendo que nem abóbora; -honre o ofício quando eu deixar este mundo."


Aí, olhando pela última vez, boto o braço no ombro da patroa e digo: "Firmina, o Majó Luciano não tem de que se queixar na vida: esse homem tem uma latrina e tanto!"

(*2) Este conto, coletado pelo grande José Martiniano de Azevedo Neto, consta em um livrinho de 1981 (que chamou Quod Vide” ou seja, “Queira Ver”, “Confira”) em que êle reuniu alguns textos que julgou importante registrar e que transcrevo em meu “blog” como uma homenagem. Nesse livrinho (*1) constam as notas a seguir

(*1) Reprodução autorizada pela Editora Globo, do livro "O Especialista e outros contos", Porto Alegre, 1968.

Humorista, autor e ator, Charles Saie, Chic Saie, como era conhecido nos meios teatrais, foi um grande estudioso do folclore ianque e especialista em imitar os caipiras norte-americanos, que muito se assemelham ao nosso jeca.

O Especialista, depois famoso em todo o mundo, foi publicado pela primeira vez em 1929. Passados 50 anos, este clássico do humorismo americano continua a circular como se acabasse de ser lançado e já houve quem o definisse como "inocentemente rabelaisiano". Suas observações são profundas e divertidas, mas para apreciá-las deve-se esquecer um pouco certos preceitos de discrição que o protagonista compreende muito bem mas não obedece.

O Especialista (*1) e (*2)

VANCÊS com certeza já ouviram falar que nós estamos no tempo dos especialistas. O meu ofício é de carpinteiro. De primeiro eu fazia casa, fazia galinheiro, e inté igreja eu fazia. Mas depois vi que era perciso um especialista no meu ofício. Assuntei, assuntei inté que dei com a minha especialidade. Fiquei nela! Minha gente, ocês estão falando com o melhor construtor de privada em toda essa várzea do Pixiri.

O meu primeiro freguês foi o Pedrinho Sargão. Ele andou ouvindo que eu estava especializado e arresolveu exprementar. Fiz pra ele uma dessas sem novidade, pra família grande, de treis buracos. Com esse trabalho criei fama, e desde entonces todo o meu tempo e todo o meu sentido está nessa especialidade. Pra falar verdade, quando o serviço anda meio escasso, eu faço uns bauzinhos pra vender. Mas o meu coração tá é na construção de privada. E não pensem vancês que quando eu termino uma, não tenho mais nada que ver com ela. Não, senhor! Dou pra todo o freguês uma garantia de meio ano, sem cobrar um vintém! Expliquei isso pro Pedrinho Sargão quando fiz a latrina dele. Um belo dia ele veio me percurar e disse ansim:

- Óia, Mané, quando ocê puder, dá uma passadinha lá p'lo meu sítio. Aquela latrina que ocê fêz tá me dando trabaio.

- Vai daí trepei no meu Ford-de-Bigode, toquei pro sítio do Pedrinho e me escondi atrás dumas árvores pramode examinar a situação.

Era bem no tempo da colheita e os empregados do homem estavam indo na casinha e ficando lá dentro mais de meia hora. Alguns, inté uma ! Veja só!

Intão eu me acheguei e disse pra ele: "Escuite, Pedrinho, ocê tá mesmo c'um bruto problema de latrina". Garrei o baú das ferramentas e entrei pra examinar a istrutura.

Primeiro arreparei no jornal pendurado no prego, pensando que ali podia estar a explicação. Mas não era nem um desses com figura pra distrair. Despois atentei pro assento e ali mesmo vi onde é que estava a coisa: o buraco que eu tinha feito dava muito cômodo. Intão peguei o serrote e deixei o assento quadrado, de quina bem viva. Aí voltei pro lugar de dantes; eu aqui, as arves no meio, e a latrina ali. Fiquei quase duas horas arreparando os empregados que iam lá. Seu moço, nenhum demorava mais de quatro minutos!

Depois disso, não fazia bem um mês e eu já tinha acabado duas latrinas pegadas, pra escola, e estava arrematando um latrinão importante, o maior trabalho que já se fez inté agora, uma de oito buracos, pro curtume dos italianos. O Majó Luciano esteve lá e viu a obra deste seu criado.

- Mané - ele me disse - estive vendo essa de oito que ocê fez pros gringos. Obra distinta, seu. Eu mais ou menos estou querendo construir no sítio que era do velho Lourenção, e inté me alembrei de lhe dizer que ocê fizesse os perparos e botasse preço pra uma privada decente.

- Seu Majó - eu disse pra ele - ocê bateu na porta certa. Isso é trabalho pra especialista. Assim que eu completar a de dois assentos que estou fazendo pro Delegado, dou uma passadinha por lá.

Daí uns dois dias toquei pro sítio do Majó Luciano. Cheguei lá na hora da bóia. Bato na porta e vejo que o homem está na mesa c'um mundaréu de visita. Aí, não querendo atrapalhar ninguém, arrodeio pra janela e grito: "Como é, seu Majó, onde é que boto essa latrina que ocê me pediu?"

O Majó Luciano saiu pra fora e aí pegamos a ver o melhor lugar. Ele, isso tava decidido a botar perto duma estradinha torta, embaixo dum enorme pé de laranja azeda. Mas eu fui logo dizendo: "Seu Majó, eu é que não fazia isso. E vou lhe dizer por quê. Pra começar, embaixo de árvores não é certo. O barulho mais esquisito da natureza é o de laranja podre caindo no telhado. Ao despois, tem outra coisa. É essa estradinha que faz um cotovelo e passa por debaixo da árvore. E lhe digo mais: aquele chão ali não chupa umidade, e no inverno fica muito escorregoso. Pense no seu pai, Majó, e se alembre que esse é quase que único prazer do velho. Olha o coitado vindo aí numa noite de chuva, co'a camisola batendo nas canelas e no outro dia de manhã ocê encontra o velho entalado no barro, ou quem sabe inté com a barriga enfiada num desses arados aí da curva. Não, Majó. Ponha essa privada no alinhamento da casa, e se não lhe fizer diferença, um pouquinho pra lá do monte de lenha. Vou lhe dizer por quê.

"Imagine uma mulher, por exemplo, quando ela vai lá fora. De volta ela já traz uns quatro paus de lenha, e arrepare que em média as mulheres vão lá fora de quatro a cinco vezes por dia. Isso faz vinte paus de lenha dentro de casa, sem trabalho nenhum. Também pode se dar outro caso. Se a mulher é meio encabulada, quando vê algum homem por perto, é garantido que ela não entra. Intão, pra disfarçar, ela faz que foi buscar lenha, aproveita pra trazer uns paus, e espera outra volta. No geral a mulher meio vergonhosa, inda mais sendo uma empregada nova, chega a fazer inté dez viagens no monte de lenha antes de se arresolver a entrar de qualquer jeito. Num dia de sorte, quando bate meio-dia, ocê já está com toda a lenha dentro de casa. Não vê a economia que isso é, Majó?

"No que toca ao buraco, todo o cuidado é pouco. Escute o que eu lhe digo: cave um buraco fundo e bem largo. É muito mais bonito ver uma privada pequena em riba de um buraco grande do que uma privada grande com um buraco pequeno por baixo. Outra coisa: quando ocê abre direito o buraco, o buraco fica aberto, e aí ocê não fica com aquela preocupação de que mais dia menos dia vai ter que cavar de novo.

"Agora, quanto à construção - eu disse pra ele - posso lhe botar sarrafo ou barrote. Sarrafo dá conta do recado. Barrote custa mais um pouco, mas vale a pena. Barrote é pro resto da vida. Não digo que não pudesse botar sarrafo, Majó. Mas calcule a sua tia velha, a Dona Inácia, que já não tem mais o que engordar. Um dia destes ela vai lá, quando o sarrafo já não aguenta, e olha a velha embutida. Outra coisa que ocê tem que se alembrar - eu disse pra ele - é do São João. A rapaziada vai lá de a quatro, de a seis, tudo cantando e bebendo ou coisa ansim; e eu quero lhe dizer que não há nada pra estragar uma festa como ter que desantalar um sujeito lá de dentro. Barrote é o que lhe digo, barrote pra ficar descansado.

"E agora, pra falar no telhado, Majó, posso lhe fazer de meia- água ou de duas águas. De duas águas custa um pouco mais, mas muita gente boa manda fazer de meia-água. E vou lhe dizer por quê.

"O telhado de meia-água tem dois cantos menos pros marimbondos fazer ninho. E numa tarde de verão não há nada que desinquiete tanto como os marimbondos a zumbir em volta da gente, quando ocê está lá lendo um pouco, maginando, pensando. E depois tem outra coisa, Majó - eu disse pra ele - telhado de meia-água dá porta mais alta. Olhe esse seu filho crescendo que nem abóbora, e ele não cresce pra baixo como cola de cavalo. Telhado de duas águas dá porta baixa; e olha aí o guri rachando a testa toda a vez que vai na casinha. Não, Majó, ponha de meia- água; pode não ser tão bonito mas é muito prático.

"Vamos ver agora os apetrechos. Posso lhe dar um prego grande ou um gancho de arame pro jornal, e além do mais, um caixãozinho pros sabugos. Calcule o seu pai, por exemplo. Velho é sempre da moda antiga e ele há de querer sabugo. Ansim, faça o que lhe digo, ponha as duas coisas, Majó. O caixãozinho pra sabugo não vai lhe custar um vintém a mais, e serve pra manter a paz na família. Não se tira manha de cavalo velho. Nem se endireita sombra de vara torta.

"E já que estamos nos apetrechos, vou lhe dizer alguma coisa sobre uma questão tênica que me puseram outro dia. A pergunta foi esta: 'Qual é a resistência, ou por outra, quantos dias dura o jornal de domingo pra uma família de oito pessoas, numa privada comum, de um buraco só?' Pra falar a verdade, a princípio embatuquei um pouco. Mas despois, como era uma pergunta de merecimento, andei tirando a minha conclusão e vi que se ocê bota o jornal no primeiro domingo do mês ele aguenta inté o sábado da outra semana. Mas isso é não contando com as visitas da cidade nem quando é tempo de goiaba.

"E outra coisa: eles agora estão metendo anúncio com uma tinta vermelha que é um despropósito. Vancê me compreende, Majó. Um cristão que não arrepare antes é capaz inté de ir no doutor. Não, alguém devia dar uma providência pra isso, e eu inté já andei me ensaiando pra escrever pessoalmente ao Dr. Chateaubriand.

"Quanto ao fechamento, posso lhe dar uma tramela de puxar com cordinha ou um ferrolho de trancar por dentro. A tramela com -cordinha, a bem dizer, não lhe custa nada; mas, franqueza, não é coisa garantida. Se alguém começa a tentear na porta, a tramela sai fora ou intão é a cordinha que rebenta. Agora, c'um ferrolho por dentro, se ocê quiser, ela é sua por toda a tarde. Não, Majó; meta um ferrolho de primeira e se abanque descansado, porque não há nada pra estragar os nervos dum homem como estar sentado lá dentro, pensando, sem um fechamento de confiança". E o Majó teve que concordar comigo

"No que toca a janela - eu disse pra ele - alguns querem e outros não querem; Agora já não estão muito na moda. Se eu fosse vancê, Majó, não queria saber de janela. E vou lhe dizer por quê. Imagine uma pessoa que vai lá. Pode ser que ela esteja meio apressada, ou quem sabe se já não esperou muito. Se a porta está fechada e ocê não responde, pode contar que arrodeiam pra espiar pela janela, e aí ocê já perde a sua concentração.

"Agora vamos tratar dos respiros, essas aberturinhas que eu recorto nas portas. Posso lhe fazer no formato de estrela, de triângulo ou intão de meia-lua; não tem muito que escolher, já que todos servem pro mesmo fim. Muita gente gosta de estrela porque dá uma sombra cheia de bico. Outros gostam de meia-lua porque acham bonito. No ano passado todo o mundo queria estrela, mas agora já estão se acalmando e pedindo meia-lua. De vez em quando eu faço um coração ao lado do outro pra algum casal novo; e também um cacho de uvas pros graúdos. Mas isto é respiro extraordinário e eu não gosto muito de recomendar porque tomam tempo e custam dinheiro.

"Majó eu disse pro homem eu se fosse ocê não me adecidia muito depressa sobre o respiro, porque o respiro tem muito que ver com a buniteza do conjunto. Também não se deve exagerar, como o Dionísio das Treis Vendas. Ele quis as duas coisas, estrela e meia-lua, sem ouvir o conselho de quem sabia mais, e hoje está arrependido. Mas agora é tarde; porque quando eu corto um respiro, não tem mais remédio. É, minha gente; ter que sentar lá todos os dias, às vezes de manhã e de tarde, e sempre olhando p'rum respiro que não é do nosso gosto, é coisa que cansa.

"Eu nunca ponho madeira com nó. É sempre tábua sãzinha. E vou lhe dizer por quê. Quando a tábua tem, nó, se o nó não cai por si, pegam a empurrar até que tiram. E se for na porta, pode contar que o buraco é sempre alto demais pra ocê, sentado lá dentro, poder olhar pra fora; e sempre de boa altura pra algum bisbilhoteiro poder olhar pra dentro, faltando o respeito com quem está quieto.

"E a porta, Majó? Como é que quer que abra? Pra dentro ou pra fora?" O homem arrespondeu que não sabia. Intão eu disse pra ele: "Pra dentro, Majó, sempre pra dentro. E vou lhe dizer por quê". Aí expliquei: "Calcule ocê sentado lá, Majó. A porta, vamos dizer, nem aberta, nem fechada; com uma fresta de dois palmos dos grandes. Ansim ocê tem bastante ar e deixa o sol entrar. Agora, se aparece alguém, ocê, sem se levantar, dá um pontapé na porta e não se incomoda mais. Mas se a porta é de abrir pra fora, onde é que ocê fica, Majó? Ocê não pode se arriscar a abrir a porta pra arejar e pra lagartear um pouco no sol; porque, se aparece alguém, ocê não pode se levantar de onde está e inda fazer uma voltinha pra ir lá fora puxar a porta, sem dar o que ver, pode?" Aí o Majó Luciano viu que eu tinha toda a razão.

Intão eu fiz a porta dele como todas as minhas portas: abrindo pra dentro, e de frente pra estrada, que é o lado do sol. Isto é coisa que eu posso dizer pra ocês todos Não há nada que descanse tanto como ficar lá de manhãzinha, num assento bem cômodo, com dois palmos de porta aberta. No inverno o sol velho bate na gente e meio que amolece o corpo, d-a-n-d-o d-a-n-d-o alívio pra ocê.

"E agora, a pintura - eu disse pra ele. De que cor quer, Majó?" O homem disse que a tenção dele era pintar de vermelho. "Majó - eu retruquei - bem que posso pintar de vermelho, e vermelho é cor bonita. Também posso pintar de verde, e verde não é feio. Isso tem cor que não acaba mais, e todas dão muita vista. Mas não é prático pintar de uma cor só. E vou lhe dizer por quê. Coisa de uma cor só não se enxerga muito bem de noite. É perciso contrariar, que nem nas cancelas onde passa o trem, e botar uma cor diferente da outra.

"Eu se fosse ocê, pintava de vermelho bem forte atravessado com lista branca. É bonito de dia e, de noite, quando ocê não tem tempo de andar percurando, é fácil de enxergar.

"Muita gente nem sabe quanta coisa é perciso calcular pra uma privada de primeira. Não, Majo, vou lhe dizer, e ocê pode acreditar que isso não é serviço pra amador. Espiar a do vizinho e pensar que compreendeu todo, não adianta; sempre -tem uma coisa que ocê não arreparou. A pior desgraça que assucedeu por aqui nestes anos foi porque os filhos do velho Ataliba pensaram que sabiam um pouco do ofício e não sabiam nada.

"O velho Ataliba, que agora já passa dos noventa, mora aí detrás desse morro com os filhos. Um dia ele mandou me chamar e perguntou por quanto eu fazia a obra. Bom, pra lhe encurtar o caso, acharam muito caro e arresolveram fazer eles mesmos. Aí é que começou a coisa.

"Eu nesse tempo estava fazendo uns bauzinhos pra vender e, quando passava pela estrada, via o trabalho deles. Não sou homem de andar metendo o nariz na privada dos outros. Ansim, quando eu ia passando e via os filhos do velho, eu só dizia como vizinho: Intão, construindo um pouquinho, não?' Ocê pode ver que eu não me entremetia no que não era da minha conta. Mas, olhe Majó, nenhuma hora me passou pela cabeça que eles não fossem se incomodar com aquela latrina. E se incomodaram mesmo. Pra quem olhava por fora, parecia um bom serviço; mas como eles não tinham conhecimento do ofício não firmaram a obra como é direito.

"Calcule ocê que eu meto uma viga de oito por dezesseis, Inteira, de alto a baixo, e inda enterro a bruta quase metro e meio no chão. É por isso que latrina minha ocê nunca vê tombada no chão. Podem arrancar por cima, mas derrubar é que não derrubam!

"Pois o que assucedeu foi isto: eles não cravaram bastante a tal privada e, inda por cima, pintaram toda de vermelho - um erro atrás do outro!

"Aí foi como lhe digo :era urna noite escura que nem carvão. O velho Ataliba estava lá dentro. Nisto veio uma mula e achou de se coçar contra a privada. Ah! Deu duas ou treis rascadas, afrouxou as viguinhas deles, e atirou com a latrina no chão e o velho lá dentro.

"O velho intão começou a gritar e os filhos ouviram aquela zoada. Um deles parou a orelha e disse: 'Que barulheira é essa? Inté parece que estão batendo nas galinhas.' Entonces eles pegaram no lampião e foram no galinheiro. Chegaram lá e não viram nada de novo. Voltaram pra casa. Aí escutaram o cachorro ladrar e o outro disse: 'A coisa parece que é lá pros lados da privada.' Mas ela estava tombada e, pra cúmulo, toda pintada de vermelho; de modos que demoraram a achar.

"Nesse meio tempo o velho tinha ficado tão aforismado que se meteu a querer sair pelo buraco do assento, bradando como o demônio. Os filhos conheceram a voz dele e vieram correndo. No que eles iam chegando o velho escorregou p'rum lado e se foi buraco adentro. Aí intão é que eles não se achegaram. Ficaram ali, só na beira, chamando 'Vem, pai! Vem, pai!' Vê ocê, Majó, que desgraça foi essa; e dizem que desd'isso o velho já não tem mais oprestígio que tinha."

Bom, o tempo foi passando e eu terminei a privada do Majó Luciano. Gentes: todo o mundo diz que, despois da minha de oito buracos, essa é a melhor privada que já se fêz neste município.

As vezes, quando eu estou querendo ficar triste, maginando que tenha errado a profissão e devia ser veterinário ou curandeiro, trepo no meu Ford-de-bigode e toco pela estrada, calculando pra chegar no sítio do Majó na hora da entrada do sol.

Quando a estrada começa a descer o morro, aí nós paramos. De lá é que se vê todo o sítio dele. Intão ficamos ali mesmo, olhando pra vista. Lá está a privada, numa subidinha, pintada de vermelho com lista branca, cheia de flor do campo em volta. E o sol velho se escondendo, largando luz em cima dela. A gente ouve um cachorro lá longe, trazendo as vacas pra tirarem leite, e o cata-vento do Majó rangendo, puxando água entra dia sai dia, que nem eu.

E olhando pra essa vista do meu trabalho, fico orgulhoso. Encho o peito de satisfação e inté me ardem os olhos. Aí eu digo pra mim mesmo: "O pessoal tem razão. Depois da minha de oito buracos, essa é a melhor privada do município. Sei que fiz bem em me especializar. Estou bem montado na vida. Só quero que o meu guri, que está crescendo que nem abóbora; -honre o ofício quando eu deixar este mundo."

Aí, olhando pela última vez, boto o braço no ombro da patroa e digo: "Firmina, o Majó Luciano não tem de que se queixar na vida: esse homem tem uma latrina e tanto!"

(*2) Este conto, coletado pelo grande José Martiniano de Azevedo Neto, consta em um livrinho de 1981 (que chamou Quod Vide” ou seja, “Queira Ver”, “Confira”) em que êle reuniu alguns textos que julgou importante registrar e que transcrevo em meu “blog” como uma homenagem. Nesse livrinho (*1) constam as notas a seguir

(*1) Reprodução autorizada pela Editora Globo, do livro "O Especialista e outros contos", Porto Alegre, 1968.

Humorista, autor e ator, Charles Saie, Chic Saie, como era conhecido nos meios teatrais, foi um grande estudioso do folclore ianque e especialista em imitar os caipiras norte-americanos, que muito se assemelham ao nosso jeca.

O Especialista, depois famoso em todo o mundo, foi publicado pela primeira vez em 1929. Passados 50 anos, este clássico do humorismo americano continua a circular como se acabasse de ser lançado e já houve quem o definisse como "inocentemente rabelaisiano". Suas observações são profundas e divertidas, mas para apreciá-las deve-se esquecer um pouco certos preceitos de discrição que o protagonista compreende muito bem mas não obedece.


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